Homens vivem menos: entenda por que a expectativa de vida deles é de até seis anos menor que a das mulheres
Os homens ainda vivem menos que as mulheres. Em Goiás, elas vivem cerca de seis anos a mais que os eles, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A expectativa de vida das mulheres é de 79,9 e dos homens são de 73,1. A média é parecida com o registrado a âmbito nacional. Os resultados voltaram a ter uma crescente depois da pandemia da Covid-19, que ocasionou numa aceleração de mortes, impactando na expectativa de vida geral da população.
A afirmação, que não é nova, mas, chama atenção diante de um novo contexto notado em cuidados com a saúde, principalmente pelo público masculino. O presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) Seção Goiás, Rychard Arruda, destaca que a questão cultural do homem ter que exercer um papel de força e virilidade impacta diretamente numa concepção errônea de que ele viverá mais tempo que as mulheres. Isso reflete em comportamentos perante à sociedade e até mesmo no autocuidado.
“Muitas vezes, até nos casos de saúde mental, os homens ainda têm preconceito de procurar um psicólogo, um psiquiatra, ou até mesmo uma consulta com geriatra. No pensamento de alguns, se for em um médico, será o atestado de fragilidade ou fraqueza e não procura apoio. Para tudo isso existe tratamento, existe terapêutica. A gente consegue melhorar. Muitas vezes você não consegue curar todas as doenças, mas conseguimos trazer uma qualidade de vida maior. Mas, sim, ainda esbarra nessa questão cultural de séculos”, pontua.
O presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, Alexandre Kalache, corrobora sobre como os fatores culturais e sociais acabam influenciando na expectativa de vida dos homens ser menor do que a das mulheres. Ele descreve como o machismo cria barreiras no autocuidado masculino. “Nós temos uma cultura machista. Uma cultura em que o homem não percebe que tem que se autocuidar. Ao contrário, o menino ouve alguém aconselhando quando rala o joelho no chão que ele não pode chorar. Se ele não chora, entende-se que ele precisa aguentar qualquer dor de maneira firme. Ou seja, calado. E isso reflete 60 anos depois: se esse mesmo menino vai ao médico com dor no peito, quem pode falar que é fraqueza? Esse menino não chora. A mim me deram uma pistola para atirar, uma bola para chutar. Para minha irmã deram uma boneca para cuidar. Essa questão de gênero, ela se constrói culturalmente e a nossa cultura é de muita violência”, destaca.
Fatores externos
A situação ainda se torna mais alarmante tendo em vista que a mortalidade masculina ainda é alta em causas externas no Brasil, seja por acidentes, homicídios e suicídios. Um documento de orientação ao Novembro Azul, que foi elaborado pelo Ministério da Saúde, traz que, em 2023, essa taxa era de 117,0 por 100 mil habitantes, totalizando 120.843 casos. No público feminino esse índice foi de 30,6 por 100 mil habitantes (33.187 casos).
O estudo aponta que os números reforçam a associação ao padrão da masculinidade hegemônica, que valoriza a agressividade, exposição a riscos e resistência ao cuidado e à expressão de fragilidades. Outro dado importante, que foi elaborado pela Fiocruz no 1º Informe Epidemiológico sobre a situação de saúde da juventude brasileira: violências e acidentes, é de que 65% das mortes registradas são de jovens e está relacionada às causas externas, sendo que a taxa de mortalidade dos homens é oito vezes maior do que as mulheres por violência na juventude. E que metade das mortes são por agressão e utilizando arma de fogo.
A gente tenta disfarçar uma certa cordialidade, mas no fundo o Brasil é alicerçado num passado de escravidão, de tortura, de brutalidade física e, culturalmente, ainda tem um elemento adicional: o álcool é aceito como uma coisa mais corriqueira, não é visto como droga. E a maioria dos casos de violência intergênero ou o homem fazendo violência doméstica é muito alimentado pela cultura do álcool, que a gente normalizou, banalizou. Eu acho que inclusive está pior do que era antes, porque o poder de lobby que a indústria do álcool tem nos meios políticos é gigantesca, pontua Alexandre Kalache.
Procura tardia
Para Richard, além da questão cultural, o homem não apresenta alterações biológicas no seu ciclo natural para despertar a necessidade de procurar um médico como forma de prevenção de doenças. “A mulher tem um período que a gente chama de climatérica, que às vezes começa um pouco antes, 48 anos, ou um pouco depois, 52 anos, mas que a mulher realmente sente alterações metabólicas e que faz ela procurar auxílio médico de maneira antecipada. E, nesse momento, a gente consegue elaborar estratégias de prevenção. O homem não tem isso. Não existe uma andropausa, não existe um momento exato na meia-vida que o homem tenha essa alteração hormonal. Ela vem aos poucos, que é chamado distúrbio androgênico do envelhecimento masculino. Por exemplo, o homem, lá com 65 anos, às vezes, perde potência sexual e, pela procura tardia, já perdeu essa janela de oportunidade para as medidas de prevenção”, destaca.
Ele ainda atrela a falta de informação como justificativa para que homens não procurem atendimento médico. Rychard explica que muitos profissionais da área têm cooptados pacientes mais jovens quando estes estão como acompanhantes de pais, tios, avós e afins nos consultórios. Entretanto, até nisso, o aspecto cultural esbarra.
Muitas vezes esses homens chegam para consultar o pai ou a mãe e, nesse momento, a gente informa que ele pode consultar para prevenção de doenças. Muitas acreditam que essa procura só aconteceria depois dos 60. Mas é só o fato de ser considerado uma pessoa idosa que você vai se consultar com 60 anos. Aí, mais uma vez, as mulheres saem na dianteira porque, na nossa sociedade, na maioria das vezes, a mulher está como acompanhante dos pais mais longevos. É um viés cultural. Seja filha, nora ou neta. É muito mais difícil ver no consultório um cuidador formal que seja o filho ou o genro” destaca.
Alexandre Kaloche faz uma reflexão utilizando a conjugação do verbo cuidar feita pelo homem. “O homem no Brasil conjuga o verbo cuidar assim: tu cuidas, ele cuida, ela cuida, vós cuidais. Eu não tenho nada a ver com isso, eu quero ser cuidado. É contra o autocuidado. A mulher conversa sobre seus problemas, tem um capital social maior, ela diversifica. O homem, quando está entre homens, vai falar de futebol ou mulher. Não vai falar sobre tristeza, ansiedade ou como anda pesado o trabalho. Ele tem que aguentar firme. A diferença da expectativa de vida entre homens e mulheres é universal”, reforça.
Outro ponto que também é destacado pelos entrevistados como fator que impacta na expectativa de vida é o fator financeiro. O presidente da SBGG Seção Goiás pontua que a mulher tende a ser mais precavida quando é falado sobre educação financeira. E isso é primordial quando se pensa em se ter um lugar para morar ou custear medicamentos para tratamentos futuros na terceira idade.
“Quando a gente fala em envelhecimento ativo, ele tem que ir além da questão do corpo, ela deve envolver a questão mental e a questão financeira também. É essa tríade que sustenta o envelhecimento. E a mulher sai na frente disso por ser mais preocupada, por se antecipar, ser mais cuidadosa”, destaca.
A busca pelo corpo perfeito também pode ter consequência
Sobre a realização de exercícios, Rychard pontua que eles são aliados para um envelhecimento ativo, mas que, para que isso aconteça, a pessoa precisa criar um hábito. Esse processo tende a ser menos prazeroso para qualquer um quando o ser vem a ter contato com qualquer exercício já na fase idosa.
“Porque ele não tem aquele hábito, não tem essa sensação de prazer que o exercício traz. Ele já tem as limitações. Muitas vezes, ele já tem uma artrose, uma dor no joelho, tem limitação, tem uma hérnia na coluna, que não pode fazer um exercício mais intenso. Desse modo, você precisa expor a sociedade de maneira antecipada a essas modalidades de exercício. Seja uma caminhada, uma corrida, uma bicicleta, pilates, hidroginástica, academia, para ver o que a pessoa gosta de fazer”, reforça.
Alexandre pontua que os jovens devem ser mais responsáveis para não deixar a vaidade falar mais alto que a saúde, algo que irá refletir também no envelhecimento. “O jovem que está em busca do corpo perfeito, que quer ficar todo musculoso, tem abusado do uso de anabolizantes e outras drogas. Ele vai pagar um preço alto porque aumenta o risco de doenças cardiovasculares. Tem jovem de 20 anos tomando testosterona. Esse rapaz está brincando com fogo”, ressalta.
O presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil revela ainda que as pessoas estão com medo de envelhecerem. “Eu nasci com uma expectativa de vida de 45 anos. Não chegava a dar medo de envelhecer. Dava mais medo de morrer do que envelhecer. Hoje as pessoas ficam com muito medo, porque é um país desigual, é um país em que você não tem segurança, não tem proteção. Você não sabe como vai ser o dia de amanhã, você não sabe bem se terá uma aposentadoria para ter um padrão de vida”, destaca Alexandre.
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