STF e suicídio da extrema direita reabrem caminho para uma direita democrática
Para a democracia é vital que a direita e a esquerda tenham viabilidade eleitoral. Porque, assim, não buscam o golpe de Estado para chegar ao poder.
A esquerda petista, a do presidente Lula da Silva, provou, em quase 18 anos de governo, que não é golpista. É democrática.
Lula da Silva perdeu três eleições seguidas para presidente da República — para Fernando Collor (uma) e Fernando Henrique Cardoso (duas) — e nunca falou ou autorizou alguém a falar em golpe de Estado.
A explicação é simples: mesmo quando perdeu, o PT demonstrou alta viabilidade eleitoral. Esteve sempre no páreo. Não havia, como não há, espaço para adotar o discurso do golpe.
Ditadura e a questão pedagógica
No século 20, constituiu-se no Brasil uma direita que, mesmo disputando eleições — quase sempre perdendo —, se tornou golpista.
Em 1960, como colaborou para eleger o presidente Jânio da Silva Quadros, a direita (a UDN) recolheu a armas. Mas, o aliado, que estava se rebelando, renunciou. A direita voltou a articular o golpe. Em 1964, num contubérnio entre civis e militares, derrubou o governo democrático do presidente João Goulart, o Jango.
Entre os adeptos do putsch de 1964 estiveram os civis Carlos Lacerda, Bilac Pinto, Adhemar de Barros e Magalhães Pinto e os militares Castello Branco, Amaury Kruel, Carlos Luís Guedes, Olímpio Mourão Filho e Golbery do Couto e Silva. E muitos outros.
O cardeal Jaime de Barros Câmara, da Igreja Católica, e os jornais “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e o “Jornal do Brasil” também apoiaram o golpe de 1964. De modo entusiástico.
Os militares ficaram no poder durante 21 anos, entre 1964 e 1985, com os presidentes-generais Castello Branco (linha moderada), Costa e Silva (linha dura), Emilio Garrastazu Médici (linha dura), Ernesto Geisel (linha moderada) e João Figueiredo (linha moderada com discurso de dura).
Em 1978, o ministro do Exército, Sylvio Frota, articulou um golpe tabajara para tentar derrubar o presidente Ernesto Geisel (entre seus aliados havia um deputado federal de Goiás — Siqueira Campos). O general chegou a planejar o bombardeamento do Palácio do Planalto.
Costa e Silva praticamente “derrubou” Castello Branco e se tornou presidente. Sylvio Frota pensou que poderia fazer algo semelhante com Ernesto Geisel.
Só que Ernesto Geisel não era Castello Branco e exonerou Sylvio Frota e conteve o golpe.
Curiosamente, um militar, bem jovem, participava ativamente do gabinete de Sylvio Frota. Trata-se general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, hoje com 78 anos e condenado à prisão por ter articulado, ao lado de Jair Bolsonaro e do general Walter Braga Netto, um golpe de Estado.
Homem inteligente e sagaz, Augusto Heleno não quis aprender com a história. Talvez tenha pensado que Jair Bolsonaro, também condenado à prisão, era a reencarnação de Sylvio Frota.
A condenação pelo Supremo Tribunal Federal de Jair Bolsonaro, dos generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto e do almirante Almir Garnier Santos é, claramente, justa. Por causa deles em si, que planejaram e puseram em marcha um golpe de Estado — que previa até o assassinato do presidente Lula da Silva e do ministro Alexandre de Moraes, do STF — e do caráter pedagógico.
No futuro, outros militares, assim como civis, pensarão dez vezes antes de tentar golpe de Estado. Porque sabem que a democracia, com os poderes funcionando, reage e manda prendê-los. A pena dura é pedagógica. (Porém, o Jornal Opção diverge num ponto: não se pode retirar a aposentadoria de pessoas com mais de 70 anos, como Augusto Heleno. Porque, nesta idade, dificilmente se pode recomeçar a vida laboral. Ressalte-se que o STF ainda não decidiu a respeito.)
Vale breves comentários sobre quatro questões: golpismo, corrupção, viabilidade eleitoral da direita e Exército e Aeronáutica no campo democrático.
1
Heroicos Freire Gomes e Baptista Jr.
Só ocorreu golpe de Estado no Brasil, desde a Proclamação da República, em 1889, até o putsch de 1964, quando o Exército assumiu a linha de frente.
Antes da posse de Lula da Silva na Presidência da República e, depois, em 2021, quando o bolsonarismo — Jair Bolsonaro, Augusto Heleno, Braga Netto e Almir Garnier — “colocou” o golpe na praça, o Exército e a Aeronáutica reagiram e se posicionaram contra. Só a Marinha se alinhou-se, perfilando ao lado de Jair Bolsonaro.
Crucial mesmo foram as posições dos comandantes do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Júnior, contra o golpe de Estado.
Se Freire Gomes e Baptista Júnior tivessem aceitado as “ordens” de Bolsonaro e cia, é muito provável que o Brasil hoje seria uma ditadura.
Então, Freire Gomes e Baptista Júnior merecem estátuas em praça pública, na Praça dos Três Poderes, como símbolo de que as Forças Armadas são democráticas, que entenderam o recado da história: não há, em nenhuma hipótese, ditaduras boas — nem de esquerda nem de direita. São todas nefastas.
2
O que explica o suicídio da direita extrema?
Por que, tendo viabilidade eleitoral, a direita optou pelo caminho do golpismo? Esta é uma pergunta que cientistas políticos precisam estudar e apresentar uma resposta (ou respostas).
Jair Bolsonaro perdeu para Lula da Silva em 2022. Mas com uma votação extraordinária. O petista foi eleito com pouco mais de 2 milhões de votos à frente do postulante da direita.
No lugar de esperar a disputa de 2026, tendo um capital eleitoral excepcional, a direita — que se tornou extrema — optou por tentar derrubar Lula da Silva. Um erro político grave.
Pode-se sugerir que a extrema direita, a de Jair Bolsonaro, ao não apostar no seu imenso capital eleitoral — portanto, ficando contra a democracia —, cometeu suicídio político.
É difícil entender como um grupo político que tem viabilidade eleitoral se torna golpista, sem pensar nas consequências.
A direita extrema tem um líder errático, Jair Bolsonaro, que, não tendo muitas luzes intelectuais, cometeu deslizes graves. A consequência imediata pode ser a reeleição de Lula da Silva — que representa, entre outras cousas, equilíbrio (o que prova a negociação com os Estados Unidos do presidente Donald Trump a respeito do tarifaço) e defesa da democracia.
3
STF cria “espaço” para a direita democrática
É possível que, com o tempo e sem Jair Bolsonaro no jogo, a direita bolsonarista se torne menos poderosa.
Por isso, a decisão do Supremo, ao condenar os golpistas à prisão — todos bolsonaristas — pode colaborar, a médio e longo prazo, para fortalecer a direita civilizada e democrática.
A retirada da extrema direita — que continuará forte no curto prazo — pode ser a consequência mais benéfica à democracia e, ao mesmo tempo, à direita que quer conquistar o poder pelo voto.
Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas (é menos bolsonarista do que parece e pode ocupar o espaço de Jair Bolsonaro, aproximando-se mais da centro-direita), Ratinho Júnior, Eduardo Leite e Romeu Zema são de direita — quem sabe, mais de centro-direita. Não são da direita extrema. No médio e longo prazo — talvez até no curto — sairão ganhando. Porque são democratas.
4
Ditadura é pior do que corrupção
Corrupção é grave, não há dúvida. Mas só o moralismo e falta de bom senso de classe média para avaliar que é a mesma coisa que atentar contra a democracia.
O crime de Jair Bolsonaro e sequazes — conspirar para substituir a democracia pela ditadura — é, em termos políticos, um dos piores.
Dizer que Jair Bolsonaro não é corrupto — não se sabe exatamente se não é (o patrimônio da família é avultado ante ganhos salariais não equivalentes. Vale a leitura do livro “O Negócio do Jair — A História Proibida do Clã Bolsonaro”, da notável repórter Juliana Dal Piva — é uma maneira de tentar perdoá-lo pelos danos que causou ao país (além do golpismo, há a polarização forjada e nada natural). Sua condenação, assim como a dos militares e civis, é justa. Um recado — forte — para todos. Um recado da história. Não se atenta contra a democracia em vão. Há consequências.
O post STF e suicídio da extrema direita reabrem caminho para uma direita democrática apareceu primeiro em Jornal Opção.
