Deus escreve reto com políticos tortos e o mito do país do futuro
Há quase um século (1941) o austríaco Stefan Zweig publicou o livro “Brasil — O País do Futuro”, que se tornou um clássico.
A obra foi encomendada por Getúlio Vargas para promover a imagem de um Brasil moderno e promissor. Embora tenha nascido de um contrato e não de uma convicção, o texto consagrou uma visão otimista do destino nacional — um sonho que, décadas depois, ainda ecoa como promessa não cumprida.
A ironia do futuro que não chega
O tempo passou e o Brasil não confirmou as esperanças de Zweig.
Pelo contrário, virou piada recorrente: “O país do futuro que nunca chega”.
O bordão resume bem o desencanto coletivo com a distância entre o potencial e a realidade.
Nos últimos quarenta anos, o PIB per capita brasileiro nos mantém entre as economias mais pobres do mundo. Em quase todos os indicadores sociais, seguimos abaixo das médias globais. Tema de meu artigo Brasil rico, brasileiro pobre.
A constatação é amarga: o ufanismo acabou. Já quase não se ouvem brasileiros proclamando com orgulho que “Deus é brasileiro”. Perdemos até essa fé simbólica em um destino abençoado.
Somos uma sociedade movida por emoções intensas e reflexões curtas.
Essa característica nos torna ciclotímicos: alternamos euforia e frustração com a mesma rapidez.
Vencemos um campeonato de futebol e acreditamos que tudo vai bem; perdemos um ídolo e mergulhamos na depressão coletiva.
Falta-nos uma cultura de racionalidade e responsabilidade, capaz de sustentar projetos de longo prazo. Sem ela, o país vive preso a ciclos de esperança e decepção.
Infelizmente, os dados decepcionantes do empobrecimento da população solapam qualquer tentativa de pensamento racional.
Populismo e estagnação
Racionalmente analisado, é difícil defender que o Brasil superará sua condição atual sem uma mudança profunda.
O país jamais será o “país do futuro” enquanto depender do populismo socializante, da burocracia dominante e da tutela estatal.
As nações que prosperaram o fizeram quando adotaram o capitalismo como cultura:
— economia de mercado;
— direito à propriedade privada;
— segurança jurídica.
Enfim, um Estado que premia o mérito, permitindo que quem produz riqueza trabalhe sem depender do governo, e que as leis protegem o cidadão, não o poder.
Enquanto não internalizarmos esses valores, estaremos condenados a ser o país do futuro que nunca chega.
O milagre da sobrevivência
Apesar de tudo, há razões para crer que Deus é mesmo brasileiro.
Nosso território é um dos mais ricos e diversos do planeta: terra fértil, minérios, energia, clima e até terras raras.
Nosso povo é inventivo, trabalhador e criativo. O agronegócio é exemplo notável do que o brasileiro pode realizar quando tem liberdade para empreender e colhe o resultado do seu trabalho.
Talvez o milagre brasileiro esteja justamente em sobreviver aos próprios governantes.
Deus, com ironia divina, nos defendeu de políticos mal intencionado dando-lhes visão curta: tão incompetentes que não conseguem fazer o bem — mas também incapazes de causar um mal irreversível.
Se fossem maus e eficientes, o país já estaria destruído.
Conclusão: a graça da mediocridade
Entre tantos paradoxos, o Brasil resiste. Prospera aqui e ali, apesar do Estado e não por causa dele.
E é nesse aparente contrassenso que se revela uma espécie de graça nacional: Deus é brasileiro. Escreve reto com políticos tortos.
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