Entre a base e o título imediato: a contradição que sufoca o futebol brasileiro
Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
“Por que não colocar a base para jogar?”
No Fluminense, a pergunta é recorrente — e legítima. O Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras (Xerém) segue formando vários talentos, mas muitos saem cedo, vendidos a baixo custo, enquanto o clube contrata jogadores caros que nem sempre entregam mais do que quem já estava em casa.
O problema, porém, não é simples.
Em 2026, o futebol vive outra realidade. O volume de dinheiro circulando no mundo da bola explodiu. Casas de aposta online bancam clubes e campeonatos, SAFs entram como promessa de profissionalismo, e a “mão invisível” chamada mercado se tornou inflacionado e agressivo. Nesse contexto, o jovem jogador também mudou.
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Nos dias de hoje, atletas de 15, 16, 17 anos são formados para serem ativos de mercado. Jogam sabendo que estão numa vitrine. O sonho acalentado não é mais “fazer carreira no clube”, mas chegar rápido à Europa: Real Madrid, Manchester City, PSG, Borussia Dortmund — clubes para poucos, cabe dizer. E, nessa lógica, o futebol virou projeto financeiro.
Os empresários ganharam ainda mais peso do que já tiveram. Muitos operam dentro de um roteiro conhecido de circulação: saída precoce, clubes do Leste Europeu ou ligas intermediárias, Portugal como hub e sucessivas transferências, onde o ativo se move mais do que se forma. Em poucos anos, o jogador acumula uma penca de transferências, todas gerando comissões. A família ganha, o empresário ganha — o clube formador, quase sempre, recebe só algum “capilé”.
Do outro lado, os clubes brasileiros vivem sob permanente pressão financeira. Precisam vender para sobreviver. Precisam equilibrar contas, estancar e sanar dívidas. Precisam fazer caixa. E, nesse ponto, o discurso da base esbarra na urgência do balanço.
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É aí que surge um paradoxo.
A torcida cobra a base, mas também cobra títulos imediatos. Quer jovens jogando, mas quer vencer agora. Defende projeto, mas não aceita tempo. Vive uma cultura em que só o primeiro lugar importa, como se qualquer outra colocação fosse fracasso retumbante.
Essa lógica inviabiliza projetos consistentes de formação.
Olhando por esse ângulo, ou se contrata jogadores prontos para competir imediatamente — reduzindo espaço para os jovens (chave do paradoxo) — ou se assume um período de testes, erros e amadurecimento. E isso exige algo absolutamente raro no futebol brasileiro: paciência.
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Que eu me lembre, o último bom time do Fluminense majoritariamente formado em casa foi o de 1980. Mesmo esse exemplo costuma ser romantizado. Aquela equipe não era de garotos crus, exatamente. Havia jogadores da base, sim, mas já maduros, ou com alguma rodagem. Edinho, aos 25, já tinha uma Copa do Mundo atuando na lateral-esquerda, amadurecido também por ter se habituado desde muito jovem à titularidade na Máquina Tricolor, jogando, desde os 20 anos, ao lado de feras. Rubens Galaxe era jogador experiente, que jogou praticamente toda a década de 70. Zezé, Robertinho, Edevaldo, Mário Marques, Tadeu e Deley foram lapidados ao longo de várias temporadas, sob a benção do formador Pinheiro (77, 78 e 79).
Hoje, esse tempo quase não existe.
Essa engrenagem invisível e cruel do mercado pressiona, os empresários pressionam, as famílias pressionam — e a torcida pressiona por juventude e títulos imediatos. O resultado é um sistema que consome seus talentos antes que eles possam, de fato, se afirmar no clube que os formou.
Talvez o debate precise mudar alguns graus. Não basta pedir “mais base”. É preciso aceitar o custo real disso: oscilações, erros, espera, frustrações. O futebol atual está inserido numa engrenagem capitalista dura, e soluções fáceis costumam ser apenas fantasias confortáveis.
O paradoxo está posto. Ignorá-lo é seguir repetindo uma indignação legítima — mas incompleta.
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*Lucio Massafferri Salles é jornalista, cronista esportivo, psicólogo e professor da rede pública de ensino/RJ. Doutor e mestre em filosofia pela UFRJ, especialista em psicanálise pela USU, realizou o seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É criador do canal FluPress (YouTube).
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