Cadela comunitária esfaqueada em SP mostra que ‘caso Orelha’ pode ter sido apenas a ponta do Iceberg
por Felipe Borges
para o Pragmatismo Político
A internação de uma cadela comunitária esfaqueada em Praia Grande, no litoral de São Paulo, nesta quinta-feira (29), ampliou o alerta sobre a escalada de violência contra animais no país e reforçou a percepção de que o assassinato do cão Orelha, em Florianópolis, pode não ter sido um episódio isolado. Em apenas uma semana, organizações de proteção animal e ativistas contabilizam mais de dez cães comunitários mortos ou feridos em diferentes regiões — número que não inclui casos que não chegaram a ser registrados oficialmente.
No caso mais recente, a cadela vira-lata conhecida pelos guardas como “caramelo” foi encontrada gravemente ferida nas proximidades da base da Guarda Costeira, na Praia do Canto do Forte. Segundo a prefeitura de Praia Grande, agentes chegaram para assumir o serviço pela manhã e notaram uma mancha de sangue próxima à estrutura. Ao perceberem a ausência do animal — que costumava recepcioná-los diariamente — iniciaram buscas pela área.
A cadela foi localizada embaixo de um contêiner usado para armazenar equipamentos. Ela apresentava múltiplos ferimentos provocados por faca e estava bastante ensanguentada. Os guardas acionaram a Divisão de Controle de População Animal, que prestou os primeiros atendimentos e encaminhou o animal a uma clínica veterinária particular credenciada pela prefeitura. A reportagem apurou que a cadela passou por cirurgia ainda na tarde de quinta-feira e permanece sob cuidados médicos.
A administração municipal informou que imagens das câmeras de monitoramento da orla estão sendo analisadas pelo Centro Integrado de Comando e Operações Especiais (Cicoe), na tentativa de identificar os responsáveis pela agressão.
Um padrão que preocupa
O episódio ocorre poucas semanas após a morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, um caso que gerou comoção nacional. Orelha, um cachorro de aproximadamente dez anos, conhecido por moradores como dócil e considerado mascote do bairro, foi encontrado agonizando na noite de 4 de janeiro, na Praia Brava — uma área turística de alto padrão da capital catarinense. O animal chegou a ser levado a uma clínica veterinária, mas precisou ser submetido à eutanásia no dia seguinte, em razão da gravidade dos ferimentos.
De acordo com a Polícia Civil, Orelha foi atingido na cabeça com um objeto contundente. A investigação identificou quatro adolescentes como responsáveis pelo ato. Dois deles permanecem em Florianópolis e tiveram celulares e computadores apreendidos para perícia. Os outros dois viajaram para os Estados Unidos logo após o episódio, em uma excursão que a defesa afirma ter sido previamente programada para a Disney. Eles retornaram ao Brasil nesta quinta-feira (29) e devem prestar depoimento nos próximos dias.
Para especialistas, a sucessão de episódios indica algo mais amplo do que crimes isolados. A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, estuda há anos processos de radicalização de adolescentes e afirma que a violência contra animais tem aparecido como um elemento recorrente em comunidades digitais extremistas.
“Eu teria zero surpresa se, depois da perícia, se concluísse que isso não foi apenas a ação de cinco meninos isolados, mas parte de uma comunidade maior, com liderança, incentivo e busca por status”, afirma a magistrada.
Segundo Cavalieri, práticas de violência extrema, incluindo tortura de animais, têm sido transmitidas e estimuladas em ambientes online, especialmente em plataformas como o Discord, muitas vezes por meio de desafios ao vivo que premiam choque, engajamento e visibilidade.
“As pessoas estão divorciadas da realidade. Elas não têm ideia de que o que aconteceu acontece todas as noites em muitas casas do Brasil”, diz.
Dessensibilização e riscos
Para a juíza, a exposição contínua de crianças e adolescentes a conteúdos extremos contribui para um processo de dessensibilização da violência, no qual atos cruéis deixam de ser percebidos como moralmente inaceitáveis e passam a ser encarados como entretenimento, desafio ou forma de pertencimento a um grupo.
Ela ressalta que muitos dos jovens envolvidos nesses episódios vêm de classes médias e altas, o que desmonta a ideia de que a violência extrema estaria associada apenas à exclusão social. “Há uma combinação perigosa de acesso irrestrito a conteúdos violentos, ausência de supervisão familiar e validação social em ambientes digitais”, afirma.
Ao mesmo tempo, Cavalieri e os advogados dos adolescentes envolvidos no caso Orelha fazem um alerta sobre os riscos da exposição pública dos investigados. A defesa critica a divulgação de nomes, imagens e endereços nas redes sociais, apontando violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o estímulo a um “linchamento virtual”.
A magistrada concorda que a exposição indiscriminada, além de configurar crime, pode produzir efeitos colaterais graves. Segundo ela, esse tipo de reação coletiva reforça o chamado “efeito manada” e pode, paradoxalmente, incentivar novos ataques, ao transformar a violência em espetáculo.
Enquanto as investigações avançam em Santa Catarina e no litoral paulista, o acúmulo de casos levanta uma questão incômoda: a de que a morte de Orelha pode ter sido apenas a face mais visível de um fenômeno silencioso, alimentado pela normalização da crueldade em ambientes digitais e pela incapacidade do Estado, das plataformas e das famílias de reagir à altura.
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