Jeff Bezos e o ataque de Trump ao Irã
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O dono da Amazon e do Post
Em agosto de 2013 foi anunciado o acordo para a venda do “The Washington Post” para o dono e fundador da Amazon, Jeff Bezos. No começo de outubro do mesmo ano foi dada como concluída a transação e feita a transferência do controle para o magnata. O valor da compra foi 250 milhões de dólares, pagos em dinheiro.
Até a década de 1970, o “Post” era apenas um jornal para o público da capital dos Estados Unidos. A partir de 1971, começou a se tornar referência do jornalismo investigativo e independente do poder ao publicar os chamados Papéis do Pentágono — revelando segredos de uma turma graúda, de Truman a Eisenhower, de Kennedy a Johnson e Nixon, que havia mentido sistematicamente ao eleitor sobre a Guerra do Vietnã (na qual morreram 55 mil soldados norte-americanos e 2 milhões de vietnamitas).
Mas é em 1973 que se consolida nacional e internacionalmente, ao tornar pública a invasão da sede dos Democratas no complexo imobiliário chamado Watergate, ocorrida em 1972, e que acabou levando ao primeiro e único caso de ameaça de impeachment de um presidente estadunidense. Antes de ser defenestrado, Richard Nixon renunciou, em 1974.
Quatro anos depois da venda para Bezos, em 2017, Steven Spielberg lançou “The Post”, seu vigésimo oitavo filme para cinema (de um total de 31), no qual conta a história da descoberta dos tais Papéis e da dramática decisão de publicá-los, mesmo enfrentando uma brutal pressão por parte da Casa Branca para que não o fizesse.
No momento em que os Papéis chegaram à direção do jornal, a publisher Katharine Graham estava negociando a associação com grandes empresários dispostos a injetar dinheiro no seu negócio e se preparando para ingressar na Bolsa de Valores de Nova York.
Publicar os Papéis poderia fazê-los cair fora e travar as mudanças planejadas. O que o filme de Spielberg celebra é a bravura da Katharine Graham (que contou tudo nas ruas memórias, “Uma História Pessoal”, 648 páginas, Editora DBA) a primeira mulher a dirigir um grande jornal nos Estados Unidos, terminando por consolidar o “Post” (como passou a ser chamado a partir dessas duas revelações).
A tentação de ceder e não publicar os Papéis era tremenda e os investidores implacáveis. Mesmo assim, a proprietária do jornal resistiu. A linha editorial continuaria de acordo com os princípios do jornalismo que vinham até ali orientando o “Post”.
(No filme, Katharine Graham é representada por Meryl Streep, indicada ao Oscar daquele ano, e o editor Ben Bradlee por Tom Hanks. Sobre o Watergate, há o filme “Todos os Homens do Presidente”, com Robert Redford e Dustin Hoffmann.)
Relembrando, esses eventos ocorreram na primeira metade dos anos 1970.
Novo Post mancha reputação do velho Post
No final de 2025, doze anos após a compra do “Post” por Jeff Bezos e em meio a uma enorme crise, o novo proprietário ordenou que a direção do jornal demitisse 300 jornalistas, de um total de 800. Departamentos inteiros foram eliminados. Nenhuma novidade no modus operandi dos grandes empresários — e Bezos é grandíssimo empresário (talvez o que lhe falta é a grandeza de Katharine Graham).
À época da transação, muitos se perguntaram por que um dos homens mais ricos do planeta estaria interessado num negócio de tão pouca monta (250 milhões de dólares em valores de hoje seriam algo entre 330 e 350 milhões).
As especulações foram muitas e até hoje é difícil encontrar uma resposta. É possível que a transação seja apenas a parte menos suja da história. Imaginemos, por exemplo, que tipo de acordos podem acontecer entre o dono da Amazon (o quarto entre os sujeitos mais ricos do mundo) e do “Post” e o também magnata presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A fortuna de Bezos é de aproximadamente 220 bilhões de dólares. Os 350 milhões pagos pelo jornal correspondem a 0,16% da sua fortuna de bilionário.
É verdade que comprar o “Post” (e seu histórico prestígio conquistado sob muita pressão) pode ter sido apenas um capricho exibicionista — afinal, um narcisista capaz de fechar Veneza para celebrar as próprias bodas nupciais é capaz de realizar qualquer proeza.
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O dono do Ocidente
O ataque coordenado dos dois políticos mais arrogantes e poderosos do planeta, Trump & Netanyahu, contra o regime dos aiatolás no Irã, tornou inapelavelmente evidente a implosão do que restava do direito internacional — e o estabelecimento de uma nova ordem na qual a velha Europa já não é chamada sequer para palpitar.
O que já vinha em frangalhos existe agora apenas como memória e o que passa a imperar é a lei do mais forte, ipsis litteris. Talvez já fosse assim desde muito tempo. Se era, pouco mais de um ano foi suficiente para que o atual imperador rasgasse o que ainda havia de máscaras na relação entre os países.
Após sequestrar o chefe de Estado de uma nação soberana e sua mulher para encarcerá-los nos Estados Unidos, acusando-os de supostos crimes cometidos sob a Lei estadunidense, o imperador decidiu simplesmente matar o líder de outra nação soberana — e o fez.
Capturado Maduro, Trump permitiu que seguisse à frente do governo venezuelano aquela que era a vice. Não está claro qual o tamanho da autonomia desse governo ou a elasticidade de sua tutela. O certo é que a exploração da maior reserva de petróleo do mundo pode agora ser livremente negociada de acordo com o interesse dos captores.
Quanto ao assassinato do Chefe Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, suponhamos que no final das contas o regime clerical seja posto abaixo. Da mesma forma como anunciou a boa vontade de colaboração por parte dos herdeiros de Nicolás Maduro, Trump já se apressou em anunciar que conta com gente de sua confiança para seguir no comando da teocracia iraniana. Teríamos, então, uma tutela semelhante à que atualmente é exercida sobre a presidente da Venezuela? Difícil crer.
O espetacular homicídio cometido contra o chefe de Estado iraniano certamente pode ser considerado como uma nova alegoria para se somar ao grande show de Trump. Mais um ato de puro exibicionismo ordenado por um narcisista patológico. Que o espetáculo sirva ao mesmo tempo para tentar cobrir os flancos abertos que começam a dar as caras no front interno, já será lucro.
Definitivamente, não há mais garantias de que os eventuais conflitos entre os Estados Unidos e outro Estado soberano sejam resolvidos pelas vias da diplomacia e da negociação. O Império se julga no direito de sequestrar ou matar quem quer que seja considerado um obstáculo aos seus interesses, hoje mais que em qualquer outro momento da história.
Como declarou recentemente o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, “estaria tudo bem se eles tomassem tudo” (“It would be fine if they took it all”). A declaração de Huckabee, de fevereiro último, se referia ao direito bíblico de Israel sobre a Cisjordânia. Com a frase depois considerada infeliz, o embaixador, no entanto, traduziu à perfeição o espírito das mais recentes ações de Israel e dos Estados Unidos no Oriente Médio e, por enquanto, no Ocidente.
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