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Novo eleitor ou velha polarização? Especialistas divergem sobre comportamento do brasileiro rumo a 2026

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O comportamento do eleitor brasileiro pode estar passando por uma transformação gradual, com maior peso da racionalidade na decisão de voto. A avaliação é do cientista político e jornalista Gaudêncio Torquato, que aponta um afastamento, ainda que parcial, do predomínio das emoções no processo eleitoral.

Segundo ele, esse movimento é resultado de anos de escândalos políticos, que aumentaram a desconfiança da população. Com isso, temas como saúde, segurança e economia ganham mais peso, e o eleitor passa a cobrar soluções concretas.

Torquato também afirma que casos recentes envolvendo suspeitas e investigações reforçam o desgaste da política e influenciam a percepção pública. Sobre 2026, ele vê um cenário ainda polarizado entre Lula e o bolsonarismo, mas aponta dificuldades para uma terceira via se consolidar devido à falta de união entre nomes do centro.

Para o autor, a principal mudança é o comportamento do eleitor, que “quer menos pirotecnia e mais substância”, tornando o voto mais crítico e pragmático.

Para o cientista político Alberto Carlos Almeida, não há evidências que sustentem a ideia de um eleitor mais racional. Para ele, a tese carece de base empírica e deve ser tratada com cautela.

Para o cientista político, discutir se o eleitor está mais racional exige parâmetros claros de comparação, o que, segundo ele, não está estabelecido. “Compara com o quê? Com qual período? É importante ter dados que sustentem isso”, diz.

Na avaliação de Almeida, o debate muitas vezes se baseia mais em percepções do que em evidências. “É difícil afirmar sem pesquisa”, resume. Um dos fenômenos que ajudam a explicar o cenário atual, segundo o cientista político, é a fragmentação do consumo de informação, potencializada pelas redes sociais.

“Cada um tem seu mundo. Cada um consome o que quiser”, afirma. Essa dinâmica, embora amplie o acesso à informação, também reduz os pontos de convergência no debate público. “Você não tem mais um assunto comum nem dentro de uma casa. Cada um segue seus interesses”, observa.

Segundo Almeida, esse processo não se limita à política, mas tem impacto direto sobre ela. “Se isso acontece numa família, na política é ainda mais forte.” Ao analisar a dificuldade de nomes fora da polarização em se viabilizar nacionalmente, Almeida aponta fatores estruturais e de comunicação.

“Existe uma barreira de comunicação. A população conhece grandes nomes”, afirma. Segundo ele, lideranças nacionais não surgem de forma espontânea. “Leva tempo para alguém aparecer, construir visibilidade, ocupar espaço”, diz.

O cientista político cita o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como exemplo de construção gradual de notoriedade política. Além disso, para Almeida, o termo “terceira via” é mais uma forma de comunicação do que uma categoria analítica precisa.

“É uma maneira de se comunicar”, afirma. Do ponto de vista analítico, no entanto, o conceito é mais restrito.

Na prática, é uma direita que não é bolsonarista, explica.

O cientista político também avalia que o eleitor leva em conta as chances reais de vitória dos candidatos, o que pode favorecer nomes mais conhecidos.

“De forma intuitiva, as pessoas dizem: esse tem chance, esse não tem”, afirma. Segundo ele, disputar uma eleição nacional exige estrutura e reconhecimento, o que cria barreiras para novos nomes.

Eleição é briga de cachorro grande. Não é simplesmente decidir ser candidato que vai dar certo, diz.

Ao projetar o cenário eleitoral, Almeida aponta que a tendência é de continuidade da disputa entre nomes já consolidados. “O Lula está no governo e é o nome mais conhecido da esquerda”, afirma.

Do outro lado, segundo ele, o bolsonarismo mantém força política. “O nome Bolsonaro continua forte. Só isso já coloca os dois em uma situação muito relevante”, diz.

“Você não tem mais um assunto comum nem dentro de uma casa. Cada um segue seus interesses”, observa | Foto: Arquivo pessoal

Comportamento eleitoral

Na mesma linha, para a cientista política Silvana Krause, a ideia de que o Brasil vive a ascensão de um eleitor mais racional, informado e independente simplifica um fenômeno mais complexo e, em muitos aspectos, equivocado.

Segundo ela, o debate contemporâneo na ciência política aponta justamente na direção oposta.

Cada vez mais, o voto tem sido influenciado por indicadores psicológicos e emocionais, diz.

Para Krause, o fato de o eleitor ter mais acesso à informação não implica, necessariamente, em decisões mais racionais. Isso porque a qualidade e a origem dessas informações são determinantes.

Quando se fala que o eleitor busca mais informação, é preciso perguntar: que tipo de informação? Ele vai buscar predominantemente nas redes sociais, afirma.

Segundo a cientista política, o ambiente digital favorece julgamentos rápidos e pouco aprofundados. “O que a gente observa é uma necessidade de julgamento precipitado, a partir do que circula nas redes, de denúncia para cá, denúncia para lá, e o eleitor reage a isso.”

Nesse contexto, a ideia de um eleitor mais crítico deve ser relativizada. “Ele pode até estar mais desconfiado, mas isso não significa que seja mais racional”, pontua. Pesquisas da Quaest indicam que uma parcela significativa permanece no centro e Krause afirma que isso não indica um cenário de polarização clássica.

Na última pesquisa do Instituto nada menos que 31% dos eleitores entrevistados se identificaram como independentes/sem posição. Por sua vez, Lulistas/Petistas 28%, Esquerda não Lulista 11%, Direita não Bolsonarista 14%, Bolsonaristas 9%.

Ou seja, é preciso analisar com atenção do que se está falando ao analisar o comportamento do eleitor brasileiro, “A gente tem que ter muito cuidado com o termo polarização. Qual polarização? Programática, ideológica, de lideranças?”, questiona Krause. Para ela, o quadro atual reflete uma distorção entre o que o sistema político oferece e o que o eleitorado demanda.

“Existe uma demanda bastante fragmentada, praticamente em três eixos. O problema é que a oferta não consegue atender esse terceiro eixo”, explica. Segundo a cientista política, candidaturas competitivas com segundo turno tendem a se concentrar em dois polos, o que limita as alternativas para o eleitor. “Há uma dificuldade de surgir uma candidatura capaz de romper essa lógica e chegar ao segundo turno.”

Krause também critica o uso recorrente da expressão “terceira via” no debate político brasileiro.

Eu não gosto desse termo. Ele vem de uma tradição da social-democracia europeia e não se aplica ao contexto atual brasileiro, afirma.

Para ela, o mais adequado é compreender o cenário como um descompasso entre oferta e demanda política. “O eleitorado está fragmentado, mas o sistema eleitoral e partidário dificulta que essa fragmentação se traduza em alternativas competitivas nas eleições majoritárias presidenciais.”

Outro fator é o comportamento do eleitor. “O eleitor brasileiro não confia em partido, ele vota na pessoa, especialmente em eleições majoritárias.” Ao analisar o comportamento eleitoral recente, Krause aponta mais um fenômeno que tem se intensificado no Brasil: o voto orientado pela rejeição.

“Não se vota apenas em quem se gosta, mas, principalmente, em quem se rejeita menos”, afirma. Segundo ela, esse padrão tende a se repetir nas próximas eleições. “O grau de rejeição vai ser fundamental para definir o potencial dos candidatos.”

Para a cientista política, o eleitor brasileiro atual combina desconfiança, exposição intensa à informação e decisões rápidas, o que não necessariamente resulta em escolhas mais racionais.

Há muita mistura nesse debate. Uma coisa é intenção de voto, outra é o conteúdo, as razões do porquê o eleitor escolhe determinado candidato, afirma.

“Ele pode até estar mais desconfiado, mas isso não significa que seja mais racional” | Foto: Arquivo pessoal

Informação e como circula

Para especialistas em comunicação política, o problema não está na falta de informação, mas na forma como ela circula. O marqueteiro Marcos Marinho afirma que o ambiente digital limita a diversidade de visões.

“Esse novo eleitor é mais atomizado, preso a bolhas cada vez menores”, afirma. Segundo ele, embora haja maior acesso a conteúdos, isso não significa pluralidade de visão. “Os conteúdos advêm de uma curadoria cada vez mais blindada ao contraditório”, diz.

Na avaliação de Marinho, o ambiente digital tem ampliado um fenômeno de confirmação de vieses. O eleitor busca informação, mas dentro de espaços que reforçam suas crenças prévias. “Ele tem mais ferramentas para confirmar predisposições que já vêm da sua formação de base”, afirma.

Essa dinâmica, segundo o marqueteiro, contribui para uma compreensão limitada do debate político. “É uma formação unidirecional, de acordo com o ambiente em que ele circula”, explica. O resultado é um eleitor mais ativo, mas nem sempre mais qualificado para analisar o cenário.

“Ele consegue criticar de maneira mais veemente, porém, com cada vez menos elementos para formular essa crítica”, diz. Para Marinho, a participação política ampliada não necessariamente se traduz em debates mais consistentes.

“É uma opinião baseada em um lastro frágil, sem profundidade para considerar todas as variáveis do contexto”, afirma. Segundo ele, isso faz com que parte das manifestações políticas tenha pouco impacto transformador.

“São opiniões mais voltadas à confirmação de viés do que à construção de algo que possa evoluir socialmente.” O marqueteiro também relativiza a visão de que a polarização é um fenômeno necessariamente negativo.

Para ele, trata-se de um mecanismo natural de simplificação da realidade. “A polarização é um fenômeno natural do processo político. A gente foi educado para entender o mundo em termos de bem e mal”, afirma.

Na prática, segundo ele, a polarização facilita a comunicação política. “Usar a polarização é simplificar um contexto complexo para facilitar a adesão a um projeto”, diz. Marinho avalia que esse padrão tende a persistir, especialmente diante das limitações de tempo e interesse do eleitor médio.

“O eleitor não tem espaço nem tempo para uma análise aprofundada. Ele quer algo simples para dizer sim ou não.” Apesar das mudanças no ambiente informacional, o fator determinante do voto, segundo o marqueteiro, permanece essencialmente o mesmo: a experiência emocional do eleitor.

“O que pesa é o que o eleitor sente no momento da eleição, ou seja, medo, fome, esperança, angústia”, afirma. Essas emoções funcionam como uma lente através da qual o eleitor interpreta a realidade política. “Ele enxerga os resultados de um governo e as promessas de outro candidato a partir dessa lente emocional”, explica.

Redes sociais

Marinho acredita que o avanço da internet e das redes sociais não tornou o eleitor brasileiro mais racional. Ao contrário, pode ter aprofundado distorções na forma como ele interpreta a política.

Ele vê no ambiente digital um mecanismo de reforço de crenças e de limitação do debate público. “Se tem uma coisa que a internet não conseguiu aumentar foi o nível de racionalidade do eleitor”, afirma.

Segundo ele, a racionalidade exige acesso a informações amplas e contextualizadas, algo que, na prática, não ocorre nas redes.

As redes sociais não trazem elementos para formar uma análise profunda. Elas trazem conteúdos formatados para ter aderência ao que eu quero que você acredite, diz.

Para Marinho, o problema não está na quantidade de informação disponível, mas na forma como ela é distribuída e consumida. “O usuário não escolhe de fato. Ele recebe conteúdos projetados para gerar engajamento e reforçar uma perspectiva”, afirma.

Esse processo cria um ciclo de retroalimentação. “Quem domina o sistema cria um ecossistema onde a sua mensagem prevalece e é reverberada por quem já concorda com ela”, explica. Na prática, isso limita a capacidade crítica do eleitor. “Ele não passa pelo processo de compreender o todo antes de formar uma visão unilateral.”

Na avaliação do marqueteiro, esse ambiente contribuiu para consolidar a divisão política no país, estruturada em torno de dois polos.

Na cabeça do cidadão médio, só quem pode vencer o Lula é o Bolsonaro e só quem pode vencer o Bolsonaro é o Lula, afirma.

Segundo ele, essa lógica foi construída ao longo dos últimos anos e se fortaleceu a partir de 2018. “Criou-se uma relação de amigo e inimigo, que simplifica o processo político”, diz. Diante desse cenário, Marinho avalia que não há espaço, no curto prazo, para candidaturas fora da polarização.

Acho que já é tarde para falar em terceira via. Não há ninguém com força capaz de romper esse espaço estreito, afirma.

Segundo ele, apenas um evento inesperado poderia alterar esse quadro. “Só uma crise muito profunda em um dos polos poderia abrir espaço e, ainda assim, seria para outro polo substituir, não para surgir uma terceira via.”

O marqueteiro também critica a falta de construção política contínua dessas alternativas. “Não foi construída nenhuma liderança com essa capacidade ao longo do tempo. Não é algo que surge poucos meses antes da eleição”, diz.

Além do ambiente informacional, Marinho aponta que o próprio sistema eleitoral brasileiro contribui para a polarização. “Nosso sistema converge para dois polos. No segundo turno é um contra o outro, como em um jogo de futebol”, afirma.

Segundo ele, essa lógica simplifica a escolha do eleitor. “Se eu gosto de um, estou com ele; se não gosto do outro, me alio a quem pode derrotá-lo.” Nesse cenário, o fator decisivo tende a ser a rejeição. “No segundo turno, ganha quem tem menos rejeição”, diz.

Apesar das limitações, Marinho reconhece que o eleitor hoje participa mais do debate público. “Ele está mais participativo porque tem mais ferramentas para se expressar”, afirma. No entanto, essa participação ocorre dentro de ambientes fechados. “Ele está em redes de confirmação de viés que reforçam suas crenças e contribuem para a polarização”, explica.

Segundo o marqueteiro, isso não amplia a compreensão política. “São processos que reforçam crença, não aprofundam o entendimento.” O cenário também impõe dificuldades para o marketing político. De acordo com Marinho, o eleitor está mais resistente a mensagens que não dialogam diretamente com suas crenças.

“Ele está cada vez mais cristalizado e difícil de ser atraído para ouvir propostas”, afirma. Além disso, há uma mudança no consumo de conteúdo político. “Ele acompanha tudo como entretenimento e se blinda de mensagens que não considera interessantes”, diz.

Nesse contexto, campanhas tradicionais tendem a perder eficácia. “Se não houver construção prévia de presença política, não há campanha que resolva isso na reta final.”

“No segundo turno, ganha quem tem menos rejeição” | Foto: Arquivo pessoal

Bolha

As pesquisas eleitorais indicam que, embora o eleitor brasileiro não se enxergue majoritariamente como “lulista” ou “bolsonarista”, a escolha do voto continua fortemente marcada pela polarização.

A avaliação é do pesquisador Kim Macherini, que vê pouca evidência de uma mudança estrutural rumo a um eleitor mais racional. “Na autoavaliação, o eleitor se coloca mais no centro, centro-direita ou centro-esquerda. Mas, na hora de escolher, a polarização aparece”, afirma.

Segundo ele, esse comportamento não é recente. “O PT é um polo desde 1994. Essa lógica de se posicionar entre A ou B já é algo normal no Brasil”, diz. De acordo com Macherini, uma das características centrais do eleitor brasileiro é o chamado voto defensivo, quando a escolha é motivada mais pela rejeição a um candidato do que pela preferência por outro.

“Muitas vezes, o eleitor não vota em alguém, mas vota contra alguém”, afirma. Esse fenômeno tem sido identificado em pesquisas recentes e ajuda a explicar a dificuldade de surgimento de alternativas fora da polarização.

Uma grande parcela escolhe para evitar que o outro vença. Isso fecha as portas para outras vias aparecerem, diz.

Embora exista a percepção de voto estratégico, o pesquisador avalia que o fator decisivo é a identificação do eleitor com determinados valores e perfis.

“Não é necessariamente votar em quem vai ganhar, mas em quem ele se sente pertencente, protegido no seu modo de pensar”, explica. Ainda assim, o componente emocional segue predominante. “No Brasil, o voto é muito mais afetivo e emocional do que racional”, afirma.

A combinação de polarização e voto emocional dificulta o crescimento de candidaturas alternativas, mesmo entre eleitores que demonstram interesse por opções fora dos dois polos principais.

“O eleitor até tem predisposição de escolher alguém mais racionalmente, mas na hora da decisão ele volta para A ou B”, diz. Segundo Macherini, há uma proximidade entre o eleitor que cogita uma terceira via e aquele que tende à abstenção.

“A chance de ele não votar ou votar em uma terceira via é parecida”, afirma. Outro fator relevante apontado pelo pesquisador é o impacto das redes sociais na formação das opiniões políticas.

“As pessoas estão em ambientes que mostram só aquilo que elas gostam e que não confrontam suas ideias”, afirma. Para ele, isso não necessariamente aumentou a polarização, mas consolidou posições já existentes.

“As redes não ampliaram a polarização, mas consolidaram verdades individuais. Hoje é muito mais difícil alguém mudar de opinião”, diz. Esse ambiente também influencia o momento da decisão do voto, especialmente na eleição presidencial.

“Os eleitores de Lula ou Bolsonaro dificilmente mudam. Eles já estão no ataque ou na defesa”, afirma. Por outro lado, há uma parcela significativa que permanece indecisa ou distante da política.

“Tem cerca de 20% que pode não votar e outros que só decidem perto da eleição, principalmente em cargos menos visíveis”, explica. O comportamento do eleitor também varia conforme a região do país. Segundo Macherini, fatores culturais e políticos locais influenciam diretamente o cenário eleitoral.

“O Centro-Oeste e o Sul têm perfis mais à direita, enquanto o Nordeste historicamente é mais alinhado à esquerda”, afirma. Além disso, alianças regionais e lideranças locais têm peso na definição do voto. “Os palanques estaduais e municipais fazem muita diferença na eleição presidencial”, diz.

Apesar das ressalvas, o pesquisador reconhece que há sinais de mudança no perfil do eleitor, ainda que com efeitos restritos. “O eleitor quer mais racionalidade, quer entender políticas públicas e propostas”, afirma.

No entanto, essa tendência aparece mais em eleições locais. “Isso é mais visível em disputas para vereador e deputado. Na eleição presidencial, o impacto é pequeno”, explica.

“Os eleitores de Lula ou Bolsonaro dificilmente mudam. Eles já estão no ataque ou na defesa” | Foto: Arquivo pessoal

Mais engajamento, menos pluralidade

Segundo o diretor Técnico e Comercial do Grupom, Mário Rodrigues Neto, há sinais de aumento no engajamento, mas também de intensificação da polarização e redução da diversidade de informações consumidas.

Em entrevista ao Jornal Opção, o especialista afirma que os dados não confirmam a tese de um eleitor mais equilibrado ou menos ideológico. “A impressão que eu tenho é uma leitura um pouco diferente. Nós não conseguimos perceber um eleitor mais racional. Na verdade, eu acredito que nós estamos indo na direção contrária”, disse.

De acordo com ele, uma das principais métricas observadas pelo instituto é o nível de engajamento político, entendido como o interesse e a disposição do eleitor em participar do debate público.

Em Goiás, esse índice chega a cerca de 50% do eleitorado. Ainda assim, o dado não necessariamente representa um avanço qualitativo no processo democrático. “Esse eleitor está consumindo um padrão de informação que é uma caixa de ressonância das redes sociais. O fato de ele estar engajado e mais informado não quer dizer que seja mais racional”, afirmou.

Na avaliação de Mário Rodrigues Neto, o ambiente digital tem papel central na formação desse novo perfil. Segundo ele, algoritmos e preferências pessoais acabam restringindo o acesso a conteúdos divergentes, criando bolhas ideológicas cada vez mais rígidas.

“São muito poucos eleitores que conseguem transitar entre as notícias da bolha da esquerda e da bolha da direita. As redes sociais afunilaram o que o eleitor consome”, explicou. “Se ele curte conteúdos de um determinado campo, ele só vai receber aquilo. Isso não gera pluralidade.”

Esse fenômeno, segundo o diretor, tende a tornar o cenário eleitoral de 2026 ainda mais polarizado do que o observado em 2018 e 2022. “Os números dão o indicativo de que a eleição vai ser mais polarizada, mais calcificada e mais difícil em termos de mudança de cenário”, disse.

Outro ponto observado nas pesquisas é a inconsistência na lembrança do voto passado, especialmente quando comparada aos resultados oficiais. Segundo ele, há indícios de que eleitores estejam reinterpretando ou até alterando suas respostas sobre escolhas anteriores.

Quando perguntamos em quem a pessoa votou em 2022 e parametrizamos os dados, não bate com o resultado da eleição. Existem hoje mais eleitores que se declaram de Bolsonaro do que aquilo que foi observado na época, afirmou.

Para o analista, esse comportamento pode estar ligado a fatores como esquecimento, mudança de opinião ou até constrangimento. “As pessoas podem não lembrar, podem sentir vergonha ou podem ter mudado de posição ao longo do tempo”, disse.

A entrevista também aponta diferenças claras no comportamento do eleitor conforme o tipo de disputa. Segundo Mário, cargos do Executivo, como presidente, governador e prefeito, despertam maior envolvimento emocional e, por isso, são mais lembrados.

“Existe um nível de envolvimento emocional com o voto. O eleitor acredita que é o Executivo que vai mudar a vida dele, então ele se envolve mais com essa escolha”, explicou. Já nas eleições proporcionais, como para deputados e vereadores, o distanciamento é maior.

“O eleitor não tem envolvimento com essa decisão. Muitas vezes vota porque alguém indicou, porque acompanha o candidato majoritário ou simplesmente vota na legenda”, disse. Esse comportamento ajuda a explicar, segundo ele, o aumento recente nos votos de legenda. “O eleitor fala: ‘votei no Lula, então vou votar no partido’. Ele simplifica a decisão”, concluiu.

“Existe um nível de envolvimento emocional com o voto” | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

Baixa capacidade crítica

A polarização política no Brasil não é um fenômeno recente, mas ganhou novas características a partir da última década, especialmente com o avanço das redes sociais e mudanças no comportamento do eleitor, segundo Mário Rodrigues Neto.

De acordo com ele, embora muitos associem o início da polarização às eleições de 2018, o processo tem raízes mais antigas. “Muita gente gosta de falar que ela surgiu ou que começou em 2018 por conta de Bolsonaro e Lula, mas é bom lembrar que, na eleição de 2014, já havia uma polarização entre Dilma e Aécio”, afirma.

Apesar disso, Rodrigues Neto destaca que o cenário político anterior era diferente do atual. “Existiam dois grupos que se rivalizavam no poder, de forma bem específica: o PT e o PSDB, mas, programaticamente, eles não são tão diferentes assim. Ideologicamente, eles são próximos”, explica.

A mudança, segundo ele, ocorre com o surgimento de uma liderança capaz de mobilizar uma parcela do eleitorado que não se sentia representada. “Quando surge o Bolsonaro, ele assume essa bandeira conservadora e agrupa em torno dele uma parcela da população que não se sentia representada pelos grupos anteriores”, diz.

Esse movimento, de acordo com o especialista, consolidou uma divisão mais clara entre campos ideológicos. “Quando a gente fala de polarização, é porque existe uma clivagem mais específica entre o que se pensa como direita e esquerda. E aí temos dois grupos que se veem representados em candidatos específicos. Aí polarizou, de fato”, afirma.

Ele aponta ainda que esse processo começou a se desenhar antes mesmo de 2018. “O movimento já vinha desde 2013, com as manifestações. Mas não havia um nome que aglutinasse essas forças como o Bolsonaro fez depois”, observa.

Para Rodrigues Neto, dois fatores principais explicam a intensificação da polarização: o viés ideológico e a transformação do ambiente de comunicação, especialmente com a internet. “Os dados que mostram razões dessa polarização basicamente são as redes sociais e viés ideológico mesmo. Não existe outro motivo que faça com que essa polarização aconteça”, afirma.

Ele explica que, antes da popularização da internet, o fluxo de informação era concentrado. “Até o fim dos anos 1990, o processo comunicacional no Brasil era ditado por poucos players, como jornais, televisão e rádio. Quando entra a internet, há uma pulverização desse processo”, diz.

Com isso, o consumo de informação passou a seguir preferências individuais. “Hoje, eu posso escolher ler apenas quem pensa como eu. Se o jornalista tem um viés mais à direita ou à esquerda, eu só consumo aquilo. Isso cria uma lógica de confirmação”, explica.

Segundo ele, esse comportamento contribui para o aprofundamento das divisões. “As pessoas começaram a buscar aquilo que confirma suas crenças. Foi separando, separando, até formar bolhas”, afirma.

Outro fator central apontado por Rodrigues Neto é a dificuldade da população em interpretar informações.

Nós temos um letramento científico muito baixo no Brasil. As pessoas têm dificuldade de ler uma tabela, interpretar um gráfico, ir além da manchete, diz.

Ele ressalta que o problema não está apenas na escolaridade formal. “O que impede a propagação de fake news não é nem a escolaridade, é o letramento científico”, afirma. De acordo com ele, estudos indicam que o nível de compreensão crítica da população é reduzido. “Somente 4% dos entrevistados atingiram um nível de letramento científico considerado mínimo. É muito pouco”, destaca.

Essa limitação, segundo o especialista, torna os cidadãos mais vulneráveis à desinformação. “A população não está preparada, do ponto de vista cognitivo, para interpretar os dados que circulam”, avalia. Rodrigues Neto também contesta a ideia de que pessoas mais velhas são mais suscetíveis à desinformação. “Criou-se a figura do ‘tio do zap’, mas isso é uma grande falácia”, afirma.

Segundo ele, diferentes faixas etárias são impactadas de maneiras distintas.

Se idade fosse sinônimo de maior capacidade crítica, jovens não cairiam em golpes. E o que mais vemos hoje é jovem perdendo dinheiro com apostas e fraudes, diz.

Para o especialista, o problema é generalizado. “Todas as faixas etárias estão sujeitas a cair em fake news. Elas só são enganadas por mecanismos diferentes”, explica.

“O que impede a propagação de fake news não é nem a escolaridade, é o letramento científico” | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

Terceira via

Para Rodrigues Neto, a dificuldade de consolidação de candidaturas alternativas à polarização entre esquerda e direita no Brasil passa, sobretudo, pela falta de identidade clara e de conexão com as demandas do eleitor.

Segundo ele, nomes frequentemente associados à chamada “terceira via” enfrentam um dilema central: não conseguem apresentar um posicionamento suficientemente distinto para atrair o eleitorado.

“O que a dita terceira via de fato tem de posição que objetivamente a faz diferente ou a faz atrativa? É difícil dizer”, afirmou. Para o analista, apenas se declarar como alternativa não basta para conquistar espaço em um ambiente político fortemente polarizado.

Mário Rodrigues Neto argumenta que o eleitor brasileiro, embora não seja plenamente racional, tem se tornado mais pragmático, isto é, toma decisões com base em interesses concretos e percepções imediatas da realidade.

“Essa turma do meio não quer dizer que vai apostar na terceira via só porque alguém levantou a mão e disse ‘eu sou a terceira via’”, disse. “O eleitor não é racional, mas ele tem se tornado pragmático no sentido de estar alinhado com aquilo que ele acredita.”

Nesse contexto, candidatos que tentam equilibrar discursos entre direita e esquerda acabam sendo vistos como indefinidos. “’Eu sou bom igual à turma da direita, mas não sou tão da direita, e tenho preocupações da esquerda’. Então você não é nada, companheiro”, resumiu.

Apesar de uma pesquisa da Quaest indicar que cerca de 40% do eleitorado não se identifica diretamente com os polos políticos, isso não tem se traduzido em força para candidaturas alternativas.

Para o diretor do Grupom, esse grupo intermediário não é necessariamente neutro. “Os 40% que estão no meio, ou eles são direita ou eles são esquerda em algum momento. Eles estão esperando alguém que consiga engajá-los”, explicou.

“Eu tenho um discurso de meio-termo suficiente para isso? Não tem. Esse é o problema.” Ele também aponta que muitos desses eleitores acabam adotando o chamado “voto defensivo”, escolhendo candidatos com mais chances de vitória para evitar o retorno de um grupo político rejeitado.

A conjuntura econômica e a percepção negativa sobre o cenário atual têm papel decisivo no comportamento do eleitor, segundo o analista. Inflação, dificuldades financeiras e instabilidade política alimentam o desejo por mudança.

“A pergunta que o eleitor se faz é: eu tenho mais medo de continuar como está ou de tentar alguma coisa diferente?”, afirmou. “Se a situação está ruim, ele vai apostar em outro. Não sabe se é melhor, mas é diferente.”

Ele acrescenta que fatores como aumento de preços, crise recorrente no governo e percepção de corrupção influenciam diretamente essa escolha. “As pessoas estão em uma situação complicada, e a perspectiva não é boa. Por que continuar apostando no cavalo que não está dando vitória?”, disse.

Ao analisar recortes regionais, Mário Rodrigues Neto destacou que o eleitor goiano apresenta perfil mais conservador do que a média do país, o que ajuda a explicar desempenhos eleitorais recentes.

“O eleitor goiano é muito mais conservador do que a média nacional. Esse é o grande diferencial”, afirmou. Segundo ele, esse traço se reflete em votações expressivas de candidatos alinhados à direita no estado.

Ainda assim, ele pondera que diferenças regionais existem, mas não alteram a lógica geral do comportamento eleitoral. “O que muda são demandas locais, mas o padrão de posicionamento ideológico segue tendências semelhantes”, explicou.

“A pergunta que o eleitor se faz é: eu tenho mais medo de continuar como está ou de tentar alguma coisa diferente?” | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

O que pensa a direita?

Para o vereador por Goiânia Major Vitor Hugo (PL), quanto maior o acesso à informação, maior tende a ser o posicionamento do eleitor, o que, na prática, reforça a divisão política no país.

O eleitor mais informado tem crescido, sem sombra de dúvida. Só que, na minha opinião, quanto mais o eleitor se informa, mais ele se posiciona em relação à polarização, escolhendo um lado, afirma.

Segundo o vereador, esse movimento favorece o campo político ao qual está ligado. “Tenho a impressão de que, quanto mais se informa sobre o que está acontecendo no governo Lula, mais ele vem para o nosso lado”, diz.

Vitor Hugo avalia que o espaço político para candidaturas fora da polarização é reduzido. “Todos têm legitimidade e experiência para disputar a Presidência. Mas o espaço para uma terceira via no Brasil é muito pequeno. Já polarizou entre o Flávio e o Lula”, afirma.

Para ele, o cenário atual não é resultado da fragilidade desses nomes, mas de um contexto político marcado por escolhas antagônicas. “Não é que sejam nomes ruins. É que o momento que a gente está vivendo é esse, de posições muito opostas, e as pessoas têm se posicionado.”

O vereador também avalia que, mesmo com uma eventual unificação dessas candidaturas, há um limite de crescimento. “Eles têm um teto. Mesmo caminhando juntos, parte do eleitor pode migrar para o Flávio”, diz, ao mencionar o filho mais velho de Jair Bolsonaro como nome competitivo no campo da direita.

Na avaliação do parlamentar, a tendência é de aumento do chamado voto útil, o que pode intensificar ainda mais a polarização. “Essa questão do voto útil, de não desperdiçar o voto, vai ser levada em consideração. Por isso que tende a acirrar a polarização conforme o tempo passa”, afirma.

Segundo ele, à medida que os candidatos apresentarem propostas e planos de governo, o eleitor tende a consolidar suas escolhas dentro dos dois principais polos. Para Vitor Hugo, as redes sociais desempenham papel central nesse processo.

Segundo ele, o ambiente digital ampliou tanto o acesso à informação quanto a exposição das posições políticas. “As redes sociais possibilitaram as pessoas se informarem mais e se posicionarem mais. E isso acabou demonstrando mais claramente os lados de cada um”, afirma.

Na avaliação do vereador, a polarização não deve ser vista necessariamente como negativa. “Ela é consequência do fato de as pessoas se posicionarem claramente. Existem visões opostas no país”, diz.

Apesar da forte divisão política, Vitor Hugo reconhece que há uma parcela significativa do eleitorado que adota critérios mais pragmáticos. “Deve ter uns 30% mais identificados com a direita e uns 30% com a esquerda. E há um grupo de 40% a 50% mais de centro, que é mais pragmático”, avalia.

Segundo ele, esse eleitor pode até ter inclinação ideológica, mas considera fatores concretos na hora do voto. “Ele pode até ter uma preferência, mas consegue votar no outro lado se houver melhor desempenho na economia, mais empregos, segurança pública e melhora na vida das pessoas.”

Ao analisar o cenário nacional, Vitor Hugo destaca a resiliência política de Jair Bolsonaro, mesmo fora do cargo. “Mesmo sem redes sociais e sem exposição diária, a vida política ainda gira em torno dele. Isso demonstra uma força indiscutível”, afirma.

Segundo ele, a indicação de Flávio Bolsonaro como possível candidato presidencial reforça essa influência. “Ele decola nas pesquisas e já empata ou até supera o Lula em alguns cenários”, diz.

No plano regional, o vereador aponta um cenário mais complexo, marcado pela força do governo estadual e pela presença do bolsonarismo. Ele reconhece o peso político de Ronaldo Caiado (PSD), mas avalia que a tendência é de alinhamento ao cenário nacional ao longo da campanha.

“Com o passar do tempo, a disputa nacional vai influenciar Goiás. Mesmo quem gosta do Caiado pode acabar votando no Flávio quando a eleição polarizar”, afirma.

Segundo Vitor Hugo, caso Caiado não dispute a Presidência, a polarização tende a se acentuar ainda mais no Estado. “Se ele não for candidato, fica mais clara ainda a polarização entre esquerda e direita aqui em Goiás”, conclui.

“Tenho a impressão de que, quanto mais se informa sobre o que está acontecendo no governo Lula, mais ele vem para o nosso lado” | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

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