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Turismo, petróleo e mísseis: crônica de uma miragem em guerra

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Ycarim Melgaço

Professor e escritor. Autor de “História das Viagens e do Turismo”. Instagram: @ycarim

Eu não pensei em geopolítica quando pisei no Golfo pela primeira vez. Pensei na arquitetura. Eu detesto esse estilo por inteiro. Viagens para o Oriente despertam imagens de camelos cruzando dunas. Imaginamos beduínos em tendas e o silêncio no horizonte. Eu confesso que não vi nada disso. Encontrei muitos prédios altos de vidro. Vi shoppings imensos e ruas muito claras. O deserto se tornou ocidental. É apenas uma cidade com um tema. Chamo isso de disneyzação da areia. Uso esse termo de Alan Bryman, autor norte-americano.

Eu não quero falar da Dubai das fotos nem da Doha que brilha. Não falarei dos projetos gigantes da Arábia Saudita. Quero falar sobre o novo espetáculo deste lugar. Mísseis cruzam o céu neste momento. Eles causam prejuízo na economia antes mesmo de tocarem o chão. Os voos param e os hotéis ficam vazios. Os cruzeiros não chegam mais. Isso ameaça a vida de milhares de pessoas que trabalham com turismo.

Eu poderia falar dos operários que constroem esse luxo. Eles vêm da Índia, do Paquistão e de Bangladesh. Vêm também do Nepal e do Sudão. Eles encaram muito trabalho e condições ruins. Mas deixarei esse assunto para depois. O foco agora mudou. A maior potência militar do mundo resolveu entrar em uma luta em uma região sem interesse direto. Eles dizem que a intervenção protege os aliados. Esse é o discurso velho do Império. O estrago atinge o mundo todo. No Golfo Pérsico, o efeito é terrível.

O petróleo é a riqueza desses países. Ele ocupa o centro do jogo. O óleo paga a indústria do futuro que os líderes planejam. Eles querem turismo de luxo e parques no deserto. Querem cidades que parecem ficção científica. Sem o dinheiro do petróleo, não existe renda para o parque de diversões na areia. Agora os países controlam o medo. Os mísseis lançados reduzem a confiança de quem investe. Os seguros ficam caros e os turistas vão embora. Isso enfraquece os planos feitos em maquetes bonitas.

Algo me deixa preocupado. Não é apenas o petróleo que importa nesta guerra. A água é o problema real. Estes países vendem óleo mas não têm água doce. Lembro de caminhar perto de um rio em Dubai. Era um rio de faz de conta. O canal era de concreto e decorado para parecer natural. A paisagem engana, mas o segredo é outro. Quase toda a água dos banhos e das piscinas vem do mar. As fontes e os jardins dependem disso. Usinas tratam essa água salgada.

Lembro de usar o chuveiro do hotel. A água saía por cima e pelos lados. Pensei que cada gota ali veio do oceano. Bombas e máquinas usam energia fóssil para mover essa água. Esse luxo depende de uma rede frágil. Precisa de petróleo barato e muita energia. As máquinas devem funcionar e as rotas no mar devem seguir abertas. A paz precisa existir. Se um míssil acertar uma usina, o turista perde o hotel. Mas a população perde a água de beber.

É preciso lembrar um detalhe com atenção. As pessoas não bebem petróleo ou gás. Elas bebem água. A vida depende dessa rede que não faz barulho. Cozinhar e tomar banho exige essa estrutura que não aparece nos cartões-postais. O governo em Washington toma decisões por interesse. Grupos ligados a Israel influenciam essas escolhas. Isso acende um perigo enorme no Golfo. O preço do barril de petróleo não é a única coisa em jogo. O lucro de um hotel de luxo também não importa tanto. A segurança da água para milhões de pessoas é a questão real.

O problema mais sério é que o “Homem Laranja” escolheu brigar com o Irã. Agora ele não acha uma saída. A história acontece de novo. Começar uma guerra é um ato simples. Basta um discurso forte, uma assinatura e um míssil. Sair da briga é outra conversa. Sobram apenas os restos. Os tubos de óleo sofrem ameaças. Os navios correm riscos. Os projetos de turismo ficam parados. Cidades inteiras sofrem. As pessoas vivem esperando o próximo ataque. Vidas humanas chegam ao fim. Os analistas de finanças não calculam essas perdas.

O Golfo vendeu ao mundo uma imagem de ilusão moderna. Eles construíram prédios altos, centros de compras e pistas de esqui no meio do deserto. Criaram ilhas artificiais. Prometeram um futuro rico com o dinheiro do petróleo. A região descobre isso agora. Um míssil certeiro torna o sonho um pesadelo. O mercado do petróleo está instável hoje. O turismo tem prejuízos graves. As mesmas pessoas pagam a conta final. Eles não escolhem as guerras. Eles sentem cada explosão na própria pele.

O século 21 está quase na metade. Precisamos dizer o que é óbvio. Guerras exatas não existem para pessoas de verdade. O prejuízo material é enorme. Mas esse ainda é o menor dos problemas. Dinheiro ou obras novas não recuperam o maior estrago. As mortes ocorrem por ordens de quem mora longe. Essas ordens vêm de salas. Nessas salas, o deserto é apenas um mapa na parede.

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