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3 poemas de Vladimir Nabokov traduzidos por Astier Basílio

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Vladimir Nabokov começou sua carreira como poeta

Astier Basílio

De Moscou

Apesar de ser mais conhecido como prosador (e autor de vários ensaios sobre Púchkin, Gógol, Tolstói, Turguêniev), sobretudo por seu romance “Lolita”, Vladimir Nabokov (1899-1977) começou sua carreira como poeta. Lançou dois livros na Rússia: um em 1916 e outro em 1918.

Em 1922, Nabokov emigrou para Berlim. Lá adotou o pseudônimo Vladimir Sirin e é com este nome que publica sua segunda coletânea de poemas, em 1923. Ao todo, lançou em vida nove livros de poemas. E traduziu Púchkin.

Além das nossas, a revista “Poesia Sempre”, de 1999, publicou uma tradução feita por Zoia Prestes.

1

Fuzilamento

Há noites que: mal durmo e a cama

Navega à Rússia pelo mar.

Sou posto sobre um chão sem grama

E neste chão vão me matar. 

É escuro, acordo, e na estante:

Relógio, fósforo ao léu

Como espingarda penetrante

Ardem-me as luzes do painel.

Protejo o tórax e o pescoço,

— Pro tiro vão dar o comando! —

Tirar os meus olhos não ouso

Do fogo em círculos piscando.

Do consciente entorpecido

O tique-taque me segura

E da diáspora, seu tecido,

De novo eu sinto a cobertura.

No peito havia o sentimento

Que fosse assim: a Rússia inteira,

Céu, noite de fuzilamento;

No chão sem grama, cerejeiras.

[1925]

2

Quando num bairro à beira-mar

na noite úmida, entediado,

vais à janela e um sussurrar

ao longe soa derramado.

Ouça e distinga a onda em açoite

seu som que ofega em terra enxuta

a proteger dentro da noite

a alma absorta que o escuta

Som indistinto em mar contínuo

até que outro dia se esgueira

soa qual copo cristalino

e vazio lá da prateleira

De novo a insônia em teus lençóis,

tua janela abres ao fundo

e estás perante o mar a sós

na paz imensa deste mundo.

Não é o som do mar quem bate,

outro zumbido eu esmiuço,

é o leve som da minha pátria

seu respirar e o seu pulso.

Ali está o tom das vozes

que muito cedo foi embora:

versar de Púchkin que se glose,

murmúrio em bosques da memória.

Há nele refrigério e bênção

por dentro desse exílio bom…

Mas é que a pressa diária imprensa

toda a leveza desse som.

Porém à noite, no silêncio,

capta esse som que o mar invade,

da pátria, com rumor intenso,

com imortal profundidade.

[6 de julho de 1926]

3

Passagem

Numa fábrica da Alemanha agora

deixa que eu fale, musa, sem ter pressa!

Numa fábrica da Alemanha agora

em minha honra tudo já começa.

Uma máquina diz: “eu dou dentadas

e arrumo esse mingau de papel torto;

já passo adiante a próxima camada”.

Uma outra diz: “eu ponho cor e corto”.

Já tendo achado o ritmo que se dosa,

a criação, que faz-se em aço, imprime

com muitos braços nestas folhas róseas

um nome de estação inverossímil.

Na firma alguém como quem não se importe

essas pétalas dispõem pelas gavetas,

onde há fotos de palmas, mar do norte,

e olhos arregalados de corvetas.

Após anos, sem se importar, se arrasta

o mesmo balconista devagar

a preciosa gaveta vai puxar

me dando uma passagem para a pátria.

[1927]

A polêmica entre Edmund Wilson e o tradutor Nabokov

[https://tinyurl.com/5yfv4b9]

O post 3 poemas de Vladimir Nabokov traduzidos por Astier Basílio apareceu primeiro em Jornal Opção.




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