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Agostinho: autenticidade da oração não se mede pela intensidade exterior, mas por sua inserção num modo de vida ordenado

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Ana Kelly Souto

De Portugal para o Jornal Opção

O abecedário de Santo Agostinho: O de Oração

Hoje, muita gente torce o nariz quando se fala em orar. Confunde-se facilmente com coisa de “crente” fanático ou com reza mecânica de católico, como se fosse algo vazio, feito por obrigação. Mas não se trata disso.

Católicos, na verdade, sempre fizeram as duas coisas, a oração que brota espontânea do coração e a oração repetida, que se apoia na tradição. Ambas são legítimas, necessárias e podem ser profundas.

A oração repetida tem uma força própria que muitos hoje ignoram. Veja o Rosário, as mesmas Ave-Marias e mistérios, rezados há séculos, em todos os continentes, por santos e pecadores. Não é vazio, é continuidade de uma corrente que vem de longe e que continuará depois de nós. Elas permitem que o ritmo das palavras acalme a mente tresloucada, que tantas vezes inventa orações que mais parecem alucinações do que diálogo com Deus.

Quando afirma “Eu, na verdade, não acreditaria no Evangelho se a autoridade da Igreja Católica não me movesse a isso” (Contra a Carta do Maniqueu, 6), Agostinho não está apenas defendendo a autoridade da Igreja contra os maniqueus, mas estabelecendo um princípio segundo o qual a fé cristã é recebida por mediação, não nasce de modo isolado no indivíduo. Esse princípio ilumina a questão das formas de oração.

Se o próprio reconhecimento da Escritura passa pela autoridade e pela transmissão da Igreja, também as expressões concretas da vida orante, como a Ave-Maria ou o Rosário, devem ser compreendidas como frutos dessa mediação. Não são invenções arbitrárias, mas desdobramentos históricos de uma tradição viva que oferece ao fiel uma linguagem para se dirigir a Deus.

Agostinho de Hipona conhecia bem as duas formas, era um retórico, filósofo, teólogo exigente, mas também um místico que ardia por dentro. Confissões não é um texto árido e conceitual, mas uma filosofia reflexiva que louva, confessa, suplica. Suas palavras são cheias de emoção e de desejo: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei!” — é uma oração do coração inflamado (e, também, poético).

Há algo revelador de sintomas de uma oração que, em vez de se enraizar na interioridade, é exposta ao espetáculo, nas notícias recentes, conta-se que um voo foi desviado porque um passageiro programou um alarme para oração no Ramadã, outro transformado em espécie de culto coletivo com cânticos e pregação, com passageiros constrangidos e impedidos de descansar.

Agostinho no Colóquio de Óstia | Foto: Reprodução

Sobre esses acontecimentos, Agostinho seria provavelmente um crítico.

Em De Ordine (I, 8), ao narrar o período em Cassicíaco, Agostinho registra um episódio aparentemente simples, mas significativo: um de seus discípulos, tomado de fervor, retira-se para satisfazer necessidades corporais rezando em voz alta, quase em tom de canto, ao que Mônica o repreende pela inadequação daquele modo de oração ao contexto.

A cena não é tratada com escárnio, mas como ocasião pedagógica, embora a oração seja um bem em si, não é indiferente à forma, ao tempo e ao lugar. O impulso religioso, quando não educado, pode tornar-se desordenado em sua expressão. Assim, Agostinho deixa entrever que a autenticidade da oração não se mede pela intensidade exterior, mas pela sua inserção em um modo de vida ordenado.

O problema dessas cenas contemporâneas não é a oração em si, é a sua desfiguração. Há nelas algo que lembra a retórica vazia. Não se trata de falar com Deus, mas de falar diante dos outros. E isso Agostinho conhecia bem, a tentação de transformar o falar em exibição performática, coisa que ele combateu nele mesmo.

Um avião, esse espaço fechado, inevitável, onde ninguém pode simplesmente se retirar, torna-se, então, o laboratório de uma distorção espiritual: a fé convertida em ocupação do outro. O que deveria ser um ato de interioridade transforma-se em constrangimento público.

Santo Agostinho não deixou um método de oração, e isso não é uma lacuna, é uma escolha, não apresenta um método, porque a compreende como movimento constante da alma, uma forma de existência, como ele próprio fez, escreve, pensa e recorda rezando. A sua obra fala de Deus e se dirige a Ele.

Por isso, quando rezamos, seja com as palavras que nos vêm na hora, seja com as palavras que a Igreja nos entrega há dois mil anos, para Agostinho devemos deslocar a oração do âmbito das palavras para o desejo. A vida humana é peregrinação, o homem não está em casa, vive como peregrino. Há em nós uma memória de pátria e uma saudade que não se resolve nas coisas do mundo. Esse desejo é a marca da origem e do destino, e a própria oração se torna esse exercício contínuo de um desejo que se estende para o alto, em direção a Deus.

E, no entanto, há momentos em que essa dinâmica se adensa até tornar-se experiência de êxtase. No episódio de Óstia, narrado no Livro IX das Confissões, Agostinho e sua mãe Mônica, apoiados numa janela, elevam-se juntos numa espécie de ascensão interior, ultrapassando gradualmente as realidades sensíveis até tocar, por um instante, a eternidade. É filosofia do tipo que não existem palavras para abarcar o sentido total, não é um raciocínio, nem conceito e diante do que não se pode falar deve-se calar, é um contato com o transcendente.

Do mesmo modo, sua conversão no episódio do “toma e lê”, no Livro VIII. Em profunda crise interior, dividido entre o desejo de mudar de vida e o apego aos hábitos antigos, Agostinho retira-se para um jardim quando ouve a voz de uma criança repetindo “toma e lê”. Interpreta aquilo como um sinal, abre as Escrituras ao acaso e lê uma passagem que o convoca à transformação. Numa cena trivial, algo se reorganiza na mente e a vontade, antes dividida, encontra direção.

Esses dois momentos mostram Agostinho como o pensador, o místico e o homem. Sua oração é movida pelo intelecto, pela compaixão do outro e pela experiência divina, orar é uma forma de habitar e dar sentido ao mundo.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

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