O silêncio de mamãe
Rosy Cardoso
Habita em mim, meio a tantas gargalhadas, o silêncio de mamãe.
Me sacia o prazer em acreditar que somos do mesmo tronco e estamos no mesmo galho. Em nossa ancestralidade, creio termos vindo da mesma terra. Como um sino, mamãe badalava uma frase (acreditava ser criada por ela) que, em repetidas vezes, citava: “Na terra, tudo, plantando, dá”.
Tanto sabia da terra como sabia do céu. Comendo e bebendo a natureza, confessava sua intimidade com a lua e, ao contemplá-la, dizia que se a lua estivesse com um círculo grande resplandecente à sua volta, seria sinal de chuva próxima, ou se a lua com círculo de luminosidade pequena,
provavelmente, as chuvas seriam tardias.
Essa cumplicidade entre nós fora aflorando, lentamente. Assim, em seu fino trato e expressiva sensibilidade, cuidava da terra, do sol, da lua, das estrelas, constelando o universo de nossa árvore.
Cresci e nem percebi ter esmaecido, em minha distração, a efervescência de tudo que ela ensinava e executava naturalmente, como ação diária.
Um dito popular, de exímia sabedoria, afirma ser educação oitenta por cento exemplo e vinte por cento, disciplina. Gosto de crer. Afirmava sempre: “não precisa falar muitas vezes: faça, e os que virem, também, farão”. Seus gestos (repetitivos) eram mais que palavras. Como dissera Guimarães Rosa: “Aquele morro é uma palavra”. E nenhuma sílaba, letras unidas entre si, daria o recado que seus silenciosos olhares e gestos reverberavam como ensinamento e exemplo.
Em momentos meditativos coroados de nascentes, poentes, recolho as lembranças de minha saudade e essas suscitam-me conforto. Mamãe era um templo ornado de sabedoria e silêncio.
Num átimo de segundo, aflorou em mim, imagens e, principalmente, sons. Esses nem vinham de mamãe, mas de gritos no quintal, dos vizinhos, das galinhas e do chiqueiro. Nos barulhos da natureza, de um pássaro que corta meu olhar em risco vertical, me situo nesse emaranhado de lembranças que cresci, e revisito minha aldeia emocional.
Recordar é viver duas vezes o mesmo templo e esbarra em mim um lenço branco de saudade, quando meus olhos aguados se turvam meio às lembranças.
Naquele tempo, escondia em minha blusa, meu primeiro sutiã. Quantas vezes sorrateiramente, subi a meu quarto, exercitando o silêncio de mamãe e arrastando meu vestido, diante do espelho, o descobria apenas para apreciá-lo, ou entre uma corrida no jogo de bola ou ciranda ou pique-esconde, dar as costas para a brincadeira e acariciar com o olhar, a mocinha que brotava em meio a menina moleca e arteira.
Ah, meu saudoso primeiro sutiã! Era rendado e branco. Eu carregava a alegria de tê-lo colado em mim, protegendo meus sinais femininos.
Dona Silvia, apoiada no trabalho e com muitas crianças pra cuidar, quebrava seu encarcerado silêncio, gritando meu nome incessantemente, para voltar pra casa e ajudá-la.
Não fui dada à obediência. Centrava-me no chão vermelho, tatuado nos mergulhos de minha criança interior, viva de aventuras, minhas marcas verdadeiras. Assim, as lembranças poéticas que hoje destaco, são essências de cada memória de minha infância, plantadas nos quintais, nas ruas de barro, de pedras, cascalhos ou poeiras.
Minhas auroras eram uma bandeirinha de alegria dançante no vento. As gargalhadas, tão altas, motivo dos beliscões de mamãe, (já que pouco falava). Mas a torcida de pele e o coadjuvante olhar sério e suave eram despercebidos aos outros, mas o suficiente para disciplinar.
Herdei, em meu quintal de emoções, o respeito e o encantamento, captei com esmero meus momentos da infância quais pareciam que o relógio andava devagar. Essa saudade e os afetos, mesmo que as lembranças me cortem os instantes de rotatividade com marcas e muitos outros entraves, elevo aos céus.
E nos olhos de mamãe, andei. Carreguei na memória das estrelas “esta luta vã com as palavras”, como afirmava Drummond, e foco sempre na escrita, as lembranças nas entranhas da casa que se esvaziou.
Fui eu primeiro que tomei caminho. E não queria ir. Parecia ter a hora um Badalo, sinalizando um novo tempo. Desnudei expectativas, atrevi atalhos de volta. O retorno geográfico não estava no traçado. Peguei a menina, dei-lhe as mãos e levei-a sonhar um altar debaixo de um pé de manga; quebrar protocolos e sonhar os cantinhos da vida sem regras, horários e explodir primaveras; florir canteiros e rir alto! Rir só para mim! Nesse afã da nova morada, longe das lições diárias, tomei bebês no ventre e em meus braços. E compreendi que mamãe também fez tudo isso sozinha. Cresce, genuinamente, a partir daí, minha compreensão.
As emoções vividas foram inúmeras. Eu nem as colocaria em palavras, pois faltam-me termos para descrevê-las. O silêncio também se fez presente. A impaciência dos dias recorta caminhos, guarnece as andanças em experiências, e provoca aprender o que não está nos livros.
Tudo muda. Tudo mudou. Conviver com o silêncio, ouvindo mais do que falando e sentindo fluir os ensinamentos ao regresso à aldeia de meus primeiros dias. Os olhos estendidos e, sempre atentos, não encontraram fronteiras autenticando, administrar os dias, pois não tenho mais tempo para desperdiçar o tempo-restante.
Mamãe esteve sempre presente com seus exemplos, rebrilhando luz na travessia de seu silêncio. Ela tinha cheiro de flor.
Entrou no céu sem pedir licença…. Em silêncio. Como sempre viveu.
Roselene Cardoso Araújo – Acadêmica da AFLAG
3ª titular
Cadeira: 5
Natural de Goiatuba – GO, nascida em 13 de março de 1958. Tomou posse em 9 de maço de 2022.
Artista plástica, Poetisa, Oficineira de Arte-terapia e Criatividade.
Cursou Letras – UFG – (inconcluso), Designer de Interiores e Paisagismo – Cambury e Mestrado em Letras – PUC GO. Exposições individuais: “Negro Olhar, Mulheres somos muitas, somos muito, Lata d’Água na cabeça e Mulheres que amam demais”. Publicações individuais: “Iconografia Poética, Andarilha, Duas falas dois encantos”. Antologias nacionais e internacionais: “O coração do Brasil em sinfonia poética-Peru/Goiânia – 2014, Literatura Goyas – Goiânia, 2015, Antologia Lusófona – Souespoeta – Portugual – 2015, Vértice de Encuentro em los Ventos Del Lago Azul – Peru – 2014, Dez Poetas e Eu – Brasília – 2014, Um Brinde à Poesia – Brasília – 2016, Siempre El Amor – Sempre o Amor – (bilíngue) – Brasília – 2016, Corazones Calientes – Corações Quentes – (bilíngua) – Brasília – 2016, Sarau Brasil 2016 – (premiação) – Paraíba – 2016, Enlazando Versos El Mundo – (bilíngue) Peri – 2016, Attilio L’Asolano Errante – (bilíngue) Itália – 2016, Retalhos do Caos-Covid – Goiânia – 2021.
Rosy Cardoso, como gosta de ser chamada, é natural de Goiatuba – Goiás.
Artista plástica, Poetisa, Oficineira de Arte-terapia e Criatividade.
Cursou Letras – UFG – (inconcluso), Designer de Interiores e Paisagismo – Cambury e Mestrado em Letras – PUC GO. Exposições individuais: “Negro Olhar, Mulheres somos muitas, somos muito, Lata d’Água na cabeça e Mulheres que amam demais”. Publicações individuais: “Iconografia Poética, Andarilha, Duas falas dois encantos”. Antologias nacionais e internacionais: “O coração do Brasil em sinfonia poética-Peru/Goiânia – 2014, Literatura Goyas – Goiânia, 2015, Antologia Lusófona – Souespoeta – Portugal – 2015, Vértice de Encuentro em los Ventos Del Lago Azul – Peru – 2014, Dez Poetas e Eu – Brasília – 2014, Um Brinde à Poesia – Brasília – 2016, Siempre El Amor – Sempre o Amor – (bilíngue) – Brasília – 2016, Corazones Calientes – Corações Quentes – (bilíngue) – Brasília – 2016, Sarau Brasil 2016 – (premiação) – Paraíba – 2016, Enlazando Versos El Mundo – (bilíngue) Peri – 2016, Attilio L’Asolano Errante – (bilíngue) Itália – 2016, Retalhos do Caos-Covid – Goiânia – 2021.
A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.
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