Ideias velhas à espera do ano novo
Não sei se é o seu caso, altaneiro leitor, mas eu corto léguas de alegrias ruidosas, sobretudo as movidas a ideias velhas. Estas, afinal, não têm futuro algum, haja vista que são sementes chochas semeadas em terra árida. Para mim, a paz em não fingir é especial. Abro, no entanto, um parêntese para o fingimento do poeta.
Este foge à regra, visto que, ao “fingir que é dor a dor que deveras sente”, faz com que o leitor sinta bem numa dor diferente das duas tidas pelo poeta, mas numa dor que o leitor não tem. O poeta não deve receber piparotes, pois ele, segundo Shakespeare, assim como o louco e o amoroso, está sempre transbordando de imaginação. Não de uma pueril, a qual faz apenas barulho de voo; o essencial, que é tirar o espírito do chão, ela não é capaz.
Confesso que sinto um certo alívio em não me enquadrar em determinados moldes alheios de felicidade, em não me deixar levar por alegrias cheirando a naftalina, daquelas que são guardadas dentro de baú para uso em datas específicas. Os festejos natalinos não me seduzem. Mas respeito quem é seduzido. Comungo com a resposta dada por Carlos Drummond de Andrade à jornalista Glória Maria, em 1984, às vésperas do Natal, quando ela fazia uma matéria sobre a data e encontrou o poeta numa rua do Rio de Janeiro. Quanto ao que pediria ao Papai Noel, Drummond respondeu à jornalista: “Eu pediria que ele me deixasse em paz. Acho o Papai Noel muito chato”.
A barba do velho é postiça e fabricada na “usina atrás do morro” do José J. Veiga. Nessa usina entra a Coca-Cola, que, em 1930, numa jogada publicitária de arrebentar a boca do balão, tirou as roupas anteriores do Papai Noel e deu-lhe outra: vermelha e o branca. E assim a empresa americana – fruto criado pelas mãos do farmacêutico John Pemberton em 1886, que transformou um xarope numa bebida de consumo mundial – o consolidou numa figura afável e acolhedora, que acabaria se impondo como a imagem universal do bom velhinho presente no imaginário coletivo. Figura esta originada de São Nicolau de Mira (atual Turquia): um bispo do século IV conhecido por sua generosidade, especialmente para com os pobres e crianças.
E há mais datas… A chegada do ano novo costuma bater à nossa porta com fogos, promessas e um cheiro artificial de recomeço. Porém, em relação àqueles que carregam a alma vestida com ideias antigas e puídas, o calendário muda, contudo a vida deles segue no mesmo passo trôpego. Troca-se o número do ano como quem muda o nome de uma rua (coisa que vereador gosta além de dar título de uma renca de coisas) sem alterar o percurso. Você, altaneiro leitor, sabe bem que o tempo é um sujeito irônico (e principalmente voraz). Ele nos observa e, a seu modo, nos diz que a mudança em nós não vem dele, mas de nós mesmos em nossa travessia por ele, que, no fim do enredo, apenas entra com o imperativo ponto final.
Há quem acredite que a virada de ano tem poderes místicos. E assim resolve pular ondas como quem deixa para trás seus próprios fracassos, vestir branco para afugentar as sombras internas e externas, engolir bagos de romã esperando que a sorte faça o trabalho que compete à sua coragem. O mar recebe (indiferente) os pulos, a roupa fica suja, as sementes de romã desaparecem (temporariamente) no estômago, e nada acontece. Afinal nenhum ritual é capaz de superar a decisão íntima, a qual passa longe de algum tipo de ação “calendaresca”.
O ano novo, no fundo, é apenas a troca da capa do livro, mas seu conteúdo segue intacto, com as mesmas frases repetidas, os mesmos parágrafos cansados de mesmices. A chance real de mudança, sabe bem você, altaneiro leitor, não está no primeiro dia do ano, porém no instante em que decidimos mudar aquilo que torra o nosso saco. Aí entra o descarte de certos hábitos antigos. Nem todos, né! Eu, por exemplo, que continuar observando passarinhos, observando bichos nas nuvens, escutando chuva, cultivando da minha solitude entre outras coisas afins.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
O post Ideias velhas à espera do ano novo apareceu primeiro em Jornal Opção.
