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Fale o que quiser de Ordaqui, mas não confunda o ofício dele de ferreiro

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A oficina de Ordaqui Nunes de Oliveira se impõe há 25 anos. Antes mesmo de o corpo entrar, o calor chega primeiro. Um bafo seco, metálico, que denuncia que ali o tempo corre em outro ritmo. O ritmo do ferro quente, da marreta que bate, da espera exata entre o fogo e a forma. É no bairro Coophamat, que Ordaqui, 68 anos, construiu seu refúgio diário. Um espaço que, para quem chega de fora, parece bagunçado. Mas só parece. “Se tirar um ferro dali, eu sei”, avisa, com a tranquilidade de quem conhece cada pedaço do próprio território. Ele sabe onde está tudo. E sabe quando alguém mexeu. Ordaqui é ferreiro. E faz questão de ser chamado assim. Confundi-lo com serralheiro é um erro grave, daqueles que podem render bronca. “Serralheiro faz portão, grade. Não pega numa caloria brava daquela”, dispara. Ferreiro, não. Ferreiro lida com fogo de verdade. Com mais de 100 graus quando a forja está acesa. Com marreta pesada. Com metal vivo. “Se tiver 40 graus aqui fora, lá na beira da forja passa de 100. Aí você imagina trabalhar o dia inteiro”, diz, enquanto explica que hidratação é coisa séria. “Tem que hidratar direto.” E completa, sem cerimônia: “Cerveja”, diz mostrando o copinho térmico. Um ofício aprendido olhando Ordaqui nasceu em Caçu, Goiás. Veio para Mato Grosso do Sul ainda menino. Começou cedo. Muito cedo. “Tenho 68. Com 13 eu já trabalhava. Fui registrado com 14, pra não esquecer.” O primeiro emprego foi atrás do  Mercadão Municipal, onde hoje funciona o Giga. Lá ficava a Indústria e Comércio Estevão, uma ferraria com mais de 60 anos de tradição. Foi o pai quem levou ele e o tio. “Não tem esse negócio de pegar na mão pra ensinar, não. É olhando que aprende.” E ele olhou. Olhou até aprender. Dos oito filhos, foi o único que seguiu a profissão do pai até hoje. “Ferreiro mesmo, só eu.” Os irmãos foram para outros caminhos. Um virou advogado trabalhando como soldador. Outro foi para a Shell, rodou o mundo, gerenciou negócio de petróleo. Um morreu eletrocutado em Rondônia. As histórias se cruzam, mas o ferro ficou com Ordaqui. “Tenho orgulho da profissão. A carreira é boa. Tirando a quentura”, diz. A bagunça que vira faca No último sábado, acompanhamos Ordaqui em uma de suas metamorfoses preferidas: transformar sucata em utilidade. Naquele dia, uma peça de amortecedor de moto virou faca em pouco mais de uma hora. Uma faca robusta e artesanal. O fogo, a batida, o formato. A furadeira improvisada, invenção dele mesmo, para facilitar o trabalho. “Tudo ali tem um dedo meu”, diz, sem vaidade exagerada. Só constatação. Inventar, aliás, não é exceção. É um método. “À noite, os neurônios trabalham”, explica. “Às vezes fico pensando numa coisa, aí de madrugada já sei como fazer. No outro dia dá certo.” Na oficina, há cadeados que ninguém abre, exceto ele. Um deles guarda a geladeira. A história é simples e reveladora: roubaram dois peixes. “Comprei um pintadinho e um bacalhau. Quando vi, sumiu. Falei: ‘Não, vou cuidar do que é meu’.”  Resolveu do jeito que sabia: criando um cadeado único. “Agora ninguém tem audácia de mexer.” Quem acompanha tudo de perto é a filha, Lorrayne Rosa, empresária e influenciadora, que transita pela oficina com intimidade e orgulho. “Eu admiro demais esse cara”, diz. “É sofrimento, é batalha, e ele faz num amor.” Ela lembra da infância entre o barulho do ferro e o cheiro da forja. “Eu vivia aqui. Corria, brincava. A casa era do lado da oficina.” Hoje, sempre que pode, volta. “Sábado passado fiquei o dia inteiro aqui, incomodando.” Lorrayne não economiza definição: “Ele não é só ferreiro. Ele é artista.” E enumera: móveis, facas, objetos, até uma logo inteira de empresa ele já reproduziu no ferro. “Tudo que você traz, ele faz.” A falta de reconhecimento da profissão incomoda. “Ferreiro tá acabando. Não tem mais. A galera não encara. Falta horário pra trabalhar, falta disposição.”  O pai concorda. “Meus filhos não aguentam, não. O calor, a marreta… não dá.” Há 25 anos Ordaqui está naquele mesmo ponto. Meio período de trabalho pesado. O outro, ele mesmo explica: “Levantamento de copo”. Vida é equilíbrio. Perguntado se conseguiria largar a oficina, responde sem rodeio: “Se tiver força, eu fico. O dia que não tiver mais, que seja a vontade do Senhor.” E faz outra advertência, dessa vez aos apressados: “Aqui não dá pra atravessar serviço. Tem que fazer um de cada vez. Se misturar, não funciona.” A oficina não é só espaço de trabalho. É memória, é identidade, é abrigo. Um lugar onde o fogo conversa com quem aprendeu a escutar. Quando alguém chama seu Ordaqui de serralheiro, ele se irrita. Mas talvez seja porque erram mais do que o nome. Erram o tempo. Erram o peso. Erram o valor de um ofício que não se aprende em manual, nem se replica em série. A oficina de Ordaqui fica na Rua Tenente João Ribeiro, 530, Bairro Coophamath. 



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