O tribunal do homem só
Tiago Vechi
Dois amigos estavam sempre juntos. O maior sempre protegia o pequenino, chamado Samuel; o protetor, em troca, recebia sentido. Conseguiram evitar os maiores perigos da infância e se mantiveram longe das pessoas más (e, por mau julgamento, de algumas boas). Essa aliança parecia durar apesar do tempo.
Tudo sempre foi bom para ambos, até o menor começar a crescer e querer viver para além de seu antigo defensor. O grande ameaçou abandonar o pequeno e deixá-lo sem ninguém para lhe dar guarda ou companhia.
Samuel temeu a solidão e escolheu a segurança da mesmice, não se permitiu questionar. Por tanto evitar o sofrimento, acabou por se cercar dele, estava só e não tinha mais nada a não ser seu velho amigo. Inevitavelmente, o tempo trouxe novos perigos, a infância acabou e, agora, seu companheiro não poderia mais protegê-lo; este era inofensivo contra a depressão da vida adulta.
Um dia Samuel acordou enjoado, pois estava com muita fome e um bafo animalesco. A barriga vazia castigava após longo jejum. Apesar de haver comida, não havia condições de querer comer; a melancolia fazia Samuel esquecer das necessidades humanas, havia construído frágil fortaleza com tijolos medrosos e triste argamassa.
Preparava seu café da manhã enquanto acendia os primeiros cigarros do dia. Olhou para baixo e viu as próprias mãos, grandes e cabeludas; sua cintura já passava da altura do fogão. Percebeu, pela milésima primeira vez: era um adulto!
Foi subitamente interrompido por um estardalhaço (causado pelo velho amigo, sempre presente em sua companhia). Apesar de quase imperceptível, sua presença sempre o assustava.
O velho amigo aproximou-se do fogão, abaixou-se e sussurrou no ouvido de Samuel. Este, depois de ouvir, fingiu não entender e ficou paralisado, enquanto o outro começou a gargalhar e sentou-se, esperando para ver como Samuel reagiria às palavras ditas. O novo adulto voltou a mexer-se; sentia muita raiva, mas não podia fazer nada a respeito (era gritantemente mais fraco).
Samuel mudou a postura e se encolheu com as mãos sobre os joelhos, largou os ovos sobre a frigideira ainda acesa e sentiu uma devastadora tristeza. Um vazio se fez dentro dele e os ovos começaram a queimar. O amigo, após apagar o fogo, começou a encará-lo com um olhar pesado, uma sentença que acalentava e fazia tremer o homem condenado.
O repentino pesar punia sem dó. Samuel não queria mais sofrer; odiava-se por, há tempos, não conseguir ser feliz. Entrara em um ciclo vicioso (tristeza e raiva, uma trazia a outra). O silêncio gritante do amigo fazia, dialeticamente, o sofrimento e o conforto.
Ele tentava ignorar seus sentimentos, tentava ignorar a presença danosa e constante do amigo, contudo nenhum esforço surtia efeito. A dor não tinha corpo, não precisava; fazia-se presente nas entranhas de Samuel, apesar de toda agonia, a solidão era a pior das condenações.
Naquele momento ele sabia que, se não abandonasse o amigo, jamais conseguiria viver sem a angústia de não saber como teria sido viver uma outra vida. Samuel percebeu que tinha construído a própria prisão, transformou seu algoz em vítima e condenou-se ao sofrimento.
Samuel foi acusador, juiz e réu. Ainda assim, não conseguiu absolvição.
Aquele companheiro trazia apenas solidão. Nunca houve ninguém ao seu lado (era seu amigo o próprio medo).
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