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Identidades e diferenças entre “O Tronco” e “Vila dos Confins”

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Álvaro Catelan

Especial para o Jornal Opção

No ano de 1956 aparecem três obras fundamentais para a consolidação da moderna ficção goiana e mineira: “O Tronco”, de Bernardo Élis; “Vila dos Confins”, de Mário Palmério; e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Neste artigo, porém, trataremos apenas das duas primeiras.

Passadas sete décadas da publicação das duas primeiras obras, o aniversário comum delas não é simples coincidência cronológica, mas o marco simbólico de um momento em que, sobretudo Goiás, se afirma literariamente no cenário nacional, projetando para além de suas fronteiras os dramas, conflitos e tensões do Brasil interiorano.

Goiás já contava com a elogiadíssima obra-prima “Tropas e Boiadas”, escrita por Hugo de Carvalho Ramos (contos, 1917), além de  “Ermos e Gerais” (contos, 1944), de Bernardo Élis, e “Gente de Rancho” (contos, 1954), de Léo Godoy Otero, todas atirando a temática da vida e conflitos do homem do interior.

Minas Gerais, de certa forma, apresentava uma maior tradição dentro desse universo regionalista, por meio de autores como Bernardo Guimarães (“O Ermitão de Muquém”, romance, 1869); Afonso Arinos, (“Pelo Sertão”, contos, 1898); Godofredo Rangel (“Andorinhas”, contos, 1922), João Alphonsus (“Eis a Noite”, contos, 1943) e Guimarães Rosa (“Sagarana”, contos, 1946).

Isso posto, existe entre os romances, “O Tronco” e “Vila dos Confins”, identidades evidentes. Ambos mergulham nos sertões goiano e mineiro, focalizando estruturas arcaicas de poder, a força dos coronéis, a precariedade das instituições e o embate entre atraso e modernização. A paisagem não é mero pano de fundo, mas personagem viva, determinante das ações humanas. Em “O Tronco”, a narrativa recria um episódio histórico — o conflito em São José do Duro (então Norte de Goiás, hoje Tocantins) — expondo a engrenagem brutal do mandonismo e a violência legitimada por interesses políticos.

Mário Palmério, escritor mineiro | Foto: José Roberto Ripper

Já em “Vila dos Confins”, o eixo narrativo gira em torno da disputa eleitoral num vilarejo fictício, revelando os bastidores do populismo, da manipulação do voto e das alianças espúrias.

Contudo, as diferenças de perspectiva e de tessitura literária são marcantes. Bernardo Élis constrói em “O Tronco” uma narrativa de forte densidade trágica, quase épica, na qual o coletivo se sobrepõe ao individual. “Sua linguagem, embora enraizada na oralidade sertaneja, tende ao tom grave, dramático, por vezes sombrio. O romance se aproxima do documento histórico, mas transcende-o pela força estética, transformando o fato em símbolo da opressão estrutural”, escreve o professor Eurípedes Leôncio (Cadernos Para o Vestibular, Colégio Objetivo).

Mário Palmério, por sua vez, em “Vila dos Confins”, investe numa narrativa mais leve, satírica e irônica. Seu olhar é agudo, por vezes mordaz, revelando as contradições da política provinciana com certo humor crítico. A construção das personagens privilegia tipos sociais bem delineados, compondo um painel quase caricatural do jogo eleitoral. Se Bernardo Élis dramatiza a violência do poder, Mário Palmério desnuda seus mecanismos com fina observação psicológica e senso de espetáculo.

Ambos os romances, porém, dialogam com a tradição regionalista brasileira, herdeira de Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego, mas acrescentam a esse legado uma dicção própria do Centro-Oeste e Sudeste, afirmando Goiás e Minas Gerais como espaço literário de densidade universal. Celebrar o aniversário simultâneo dessas obras é reconhecer não apenas dois livros importantes, mas um momento fundador de maturidade estética e consciência crítica, principalmente da literatura goiana, quando o sertão deixou de ser periferia narrativa e passou a ocupar o centro do palco ficcional brasileiro.

 Identidades e diferenças

Há uma identidade significativa entre “O Tronco” e “Vila dos Confins”, especialmente no que diz respeito à temática do coronelismo e da violência política no Brasil rural, retratando com fidelidade a vida sofrida e conturbada do homem do interior brasileiro. O coronelismo – em ambos os romances, retratam o domínio dos coronéis sobre as comunidades do interior, mostrando a relação entre poder político, violência e exploração das camadas mais pobres. Tanto Bernardo Elis quanto Mário Palmério conheciam com detalhes o Brasil do interior.

Também o ambiente rural e o regionalismo são aspectos marcantes nas duas obras. Ambas se passam em cidades do interior brasileiro: “Vila dos Confins”, na fictícia Santa Rita do Morro; “O Tronco” na realística São José do Duro, espelhando o sertão de Minas Gerais e de Goiás para o mundo.

Tanto Mário Palmério quanto Bernardo Élis expõem as injustiças do sistema oligárquico e a impunidade das elites locais, muito embora seja maior a dramatização e riqueza literária no romance “O Tronco”. Vale observar que ambos os romances evitam idealizações do sertão e apresentam um Brasil marcado pela corrupção, brutalidade e desigualdade.

Há diferenças nos estilos dos dois romances. “Vila dos Confins” tem um tom mais documental, quase jornalístico, e se concentra nos bastidores das eleições manipuladas pelo coronelismo. Já “O Tronco” enfatiza a narrativa da violência extrema, expondo um massacre cometido por jagunços a mando de um coronel. Como já dito, sua abordagem é mais dramática e intensa, numa linguagem rica e mais bem elaborada. Embora cada autor tenha seu estilo próprio, as duas obras dialogam como importantes narrativas do regionalismo crítico, denunciando um Brasil rural marcado pelo autoritarismo e pela luta desigual entre opressores e oprimidos.

Vale dizer que, por questões contratuais, a obra “O Tronco”, que foi até transformada num excelente filme (1999) por João Batista de Andrade, teve menos de dez edições, enquanto “Vila dos Confins” foi editado mais de duas dezenas de vezes.

Felizmente, com o excelente trabalho desenvolvido pelo escritor Nilson Jaime, em torno da vida e obra de Bernardo Elis, por intermédio do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe), em breve teremos o icônico romance do escritor goiano de volta aos catálogos. Está previsto para 2026 o lançamento de “O Tronco — Edição comemorativa 70 anos”, com fortuna crítica e biobibliografia do imortal da Academia Brasileira de Letras. Com esse trabalho de ressignificação desenvolvido pelo Icebe, já percebemos a nova dimensão que estão ganhando os contos e romances desse genial autor goiano.

Álvaro Catelan é professor de literatura, escritor, folclorista, pesquisador da cultura caipira, é membro  do Icebe e do Instituto Altair Sales (IAS). É colaborador do Jornal Opção.

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