Добавить новость
ru24.net
World News in Portuguese
Март
2026
1 2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

O que o Carnaval não consegue calar

0

I de Interioridade

Ana Kelly Souto

Há duas épocas do ano em que o brasileiro parece apostar que a felicidade depende do calendário: o Réveillon e o Carnaval. No primeiro, promete mudar de vida; no segundo, decide esquecê-la por alguns dias. Em ambos os casos, age como se bastasse virar a página do tempo para que os impasses interiores também se resolvessem.

Agostinho, que não conheceu o samba-enredo, mas conheceu profundamente a alma humana, diria que essa expectativa depositada nas datas não nasce da frivolidade, mas de algo mais profundo. O desejo de felicidade é universal; ninguém quer ser infeliz. Embora a pós-modernidade goste de tensionar essa afirmação, permanece o fato de que todos desejam gozar a verdade, ninguém quer viver na mentira. Nas Confissões, ele afirma que a felicidade é o “fruir a verdade”. O problema não está no desejo, mas naquilo que, sob aparência de verdade, se instala no seu lugar e passa a exigir de nós uma entrega que só o verdadeiro pode sustentar.

O Carnaval, nesse sentido, é quase uma parábola antropológica: ele dramatiza a exterioridade por meio de cores, sons, corpos e excessos. Não há nada de intrinsecamente errado nisso. Agostinho não era um iconoclasta do sensível, pois reconhece que o homem interior conhece graças ao homem exterior e que o espírito julga aquilo que os sentidos lhe apresentam. O problema começa quando o exterior deixa de ser ocasião e passa a ser definitivo.

É nesse deslocamento que se instala a tensão entre o efêmero e o eterno na busca humana pela felicidade. O que passa encanta, mas não permanece, o que permanece exige interioridade. Quando o transitório ocupa o lugar do definitivo, o desejo sofre não porque desejou demais, mas porque pediu ao efêmero aquilo que apenas o que permanece pode oferecer.

É nesse ponto que a reflexão nos conduz à letra I do abecedário.

Como observa o professor Moacyr Novaes ao comentar o Livro XI das Confissões, na meditação sobre o tempo e a eternidade aparece algo desconcertante: o tempo é a condição do espírito distendido, e a vida do espírito é dispersão. A eternidade não é um objeto a ser dominado, mas um horizonte ao qual o espírito deve se conformar, e isso muda tudo, pois interioridade não é construir um eu mais sólido, é permitir que o eu seja reformado por aquilo que o transcende. Não se trata de compreender a eternidade, mas de deixar-se moldar por ela.

Interioridade, no sentido agostiniano, é muito mais radical do que qualquer psicologia espiritual. Não se trata de introspecção narcisista nem de um retiro de fim de semana, mas de um gesto intelectivo e ético que reconhece que, se tudo o que me encanta pode desaparecer, então essas coisas não podem ser o fundamento da minha felicidade. O homem perde-se quando toma o relativo como absoluto, e o Carnaval, por definição, é relativo, ele passa, a música cessa, o bloco dispersa, a fantasia é descartada. Na quarta-feira de cinzas, o sujeito reencontra algo que nenhuma bateria conseguiu silenciar, a si mesmo.

Essa experiência revela o que Agostinho chama de inquietude, pois a alma deseja continuamente aquilo que não se finda, o desejo não erra quanto ao objeto último, erra apenas no endereço provisório.

Interioridade não é fuga é ascensão

Se o efêmero não pode sustentar o que o desejo espera, a saída não é intensificar o ruído, mas mudar a direção do olhar. A interioridade não é fuga do mundo nem um recuo melancólico diante da alegria coletiva, o retorno a si não significa abandonar o exterior, mas julgá-lo.

Surge então a pergunta sobre o que nos molda e o que molda a alma brasileira, se é o calendário festivo, o ritmo da bateria ou se há algo que ultrapassa esse compasso e, para além dele, determina a medida do nosso desejo. As Confissões revelam que somos moldados pelo que amamos, pois é o amor que dá forma à alma, seja elevando-a ao Bem que não passa, seja deformando-a quando se fixa no que é menor como se fosse absoluto. Agostinho escreve não para informar Deus, que nada ignora, mas para examinar seus próprios amores, ordenar o afeto, purificar o desejo e conformar o espírito àquilo que verdadeiramente permanece.

Depois da quarta-feira

Ouso dizer que a quarta-feira de cinzas é um símbolo involuntariamente agostiniano, porque nos recorda a transitoriedade. E é nesse descompasso que a interioridade é tocada, quando reconhecemos que nenhum objeto provisório é proporcional ao desejo que nos habita, pois não é o desejo que é excessivo, mas o que passa que é insuficiente, de modo que buscar a interioridade é adentrar para ascender.

O Carnaval termina quando a música acaba.

A inquietude termina apenas quando a alma encontra o que não acaba, no silêncio exigente da interioridade.

Referência

Moacyr Novaes, “Eternidade em Agostinho: interioridade sem sujeito”.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

O post O que o Carnaval não consegue calar apareceu primeiro em Jornal Opção.




Moscow.media
Частные объявления сегодня





Rss.plus
















Музыкальные новости




























Спорт в России и мире

Новости спорта


Новости тенниса