Poema de Gabriel Nascente: Estamos à deriva (ou a ode do ódio pela guerra do Oriente)
I
Arranquem o Apocalipse da
minha agenda de trabalho!
O céu se alumia e eu vou chegando
com a minha boca cheia de pássaros.
A palavra não nasceu
para escrever guerra.
E nós, das trincheiras do idílio,
não suportamos as atrocidades desses
bombardeios nos corredores de nossos nervos.
São trilhões de dólares torrados
na estupidez dessas matanças.
O sol tem vergonha.
Os urubus de aço vomitam
o sadismo de fogo de seus mísseis.
E eu me protejo detrás
do sofá, lendo Neruda.
Ó alma nazarena!
Ó vulto universal das virtudes!
Desliguem as sirenes da morte.
II
O homem está de costas
para o rio das verdades.
A guerra me soçobra.
Deus não usa farda.
E a palavra é a novilha
da ternura.
Estamos à deriva. E eu,
de pé, faço o meu apelo
às asceses. Sim.
A guerra me soçobra.
Todo o amanhecer tem o
ronco das máquinas mortíferas.
Lama seca de cadáveres que escorre,
pelos solos areentos que fumegam.
Há sempre alguém se afogando
no vinho azedo das lágrimas.
Deus não usa farda.
A guerra me soçobra.
III
Por quê e para quê?
Pela constância
capitalista da Paz?
Da paz que vem do etéreo
e não é mentira entre
os pingos de chuva?
Da paz, com sua flauta de
assovios acordando colinas?
A paz dos regos d’água
e dos grãos de arroz.
E da caneta que oculta
um milhão de segredos,
às vésperas de escancarar
seu arsenal de versos.
IV
Toneladas de explosivos são
disputas de cachorros doidos.
Generais de cabeças ocas, acordem!
Olhem aqui! Bananas pra vocês,
seus amebas de farda!
Que coisa mais sem lógica
essa briga de canhões.
Depois não venham me dizer:
é natural! é natural!
Amanhã irão se alimentar
de fígados de calangos
com espinhos de cactos.
Querem mais?
O mundo precisa mais de poesia
do que de pólvora.
V
A sanha atroz
dos blindados.
A sanha veloz
dos mísseis.
Vômitos de bombas.
Pânico. Correrias
de pressurosos
vultos empoeirados de
pavor e sangue.
Vidas ceifadas, de graça.
Ventanias de estilhaços
de aço e de chumbo
provocando fugas de
famílias para os desertos,
(onde erguem suas tendas
em solos quentes de areias)
fedendo a mortes,
esgares e pólvoras.
VI
Estamos à deriva.
Crianças perdem suas vidas
como moscas massacradas,
com seus olhinhos queimados
pela pólvora.
Agarradas a seus brinquedos,
crianças, à espera de hospitais,
de abrigos e de pão.
Ô turvação de trevas
e de destroços, até quando?
Violentos rastros de fogo
rasgam os caminhos da noite.
Quem, afinal
pedirá perdão?
O demônio ri.
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