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Poema de Gabriel Nascente: Estamos à deriva (ou a ode do ódio pela guerra do Oriente)

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Gabriel Nascente: poeta | Foto: Facebook

I

Arranquem o Apocalipse da

minha agenda de trabalho!

O céu se alumia e eu vou chegando

com a minha boca cheia de pássaros.

A palavra não nasceu

para escrever guerra.

E nós, das trincheiras do idílio,

não suportamos as atrocidades desses

bombardeios nos corredores de nossos nervos.

São trilhões de dólares torrados

na estupidez dessas matanças.

O sol tem vergonha.

Os urubus de aço vomitam

o sadismo de fogo de seus mísseis.

E eu me protejo detrás

do sofá, lendo Neruda.

Ó alma nazarena!

Ó vulto universal das virtudes!

Desliguem as sirenes da morte.

II

O homem está de costas

para o rio das verdades.

A guerra me soçobra.

Deus não usa farda.

E a palavra é a novilha

da ternura.

Estamos à deriva. E eu,

de pé, faço o meu apelo

às asceses. Sim.

A guerra me soçobra.

Todo o amanhecer tem o

ronco das máquinas mortíferas.

Lama seca de cadáveres que escorre,

pelos solos areentos que fumegam.

Há sempre alguém se afogando

no vinho azedo das lágrimas.

Deus não usa farda.

A guerra me soçobra.

III

Por quê e para quê?

Pela constância

capitalista da Paz?

Da paz que vem do etéreo

e não é mentira entre

os pingos de chuva?

Da paz, com sua flauta de

assovios acordando colinas?

A paz dos regos d’água

e dos grãos de arroz.

E da caneta que oculta

um milhão de segredos,

às vésperas de escancarar

seu arsenal de versos.

IV

Toneladas de explosivos são

disputas de cachorros doidos.

Generais de cabeças ocas, acordem!

Olhem aqui! Bananas pra vocês,

seus amebas de farda!

Que coisa mais sem lógica

essa briga de canhões.

Depois não venham me dizer:

é natural! é natural!

Amanhã irão se alimentar

de fígados de calangos

com espinhos de cactos.

Querem mais?

O mundo precisa mais de poesia

do que de pólvora.

V

A sanha atroz

dos blindados.

A sanha veloz

dos mísseis.

Vômitos de bombas.

Pânico. Correrias

de pressurosos

vultos empoeirados de

pavor e sangue.

Vidas ceifadas, de graça.

Ventanias de estilhaços

de aço e de chumbo

provocando fugas de

famílias para os desertos,

(onde erguem suas tendas

em solos quentes de areias)

fedendo a mortes,

esgares e pólvoras.

VI

Estamos à deriva.

Crianças perdem suas vidas

como moscas massacradas,

com seus olhinhos queimados

pela pólvora.

Agarradas a seus brinquedos,

crianças, à espera de hospitais,

de abrigos e de pão.

Ô turvação de trevas

e de destroços, até quando?

Violentos rastros de fogo

rasgam os caminhos da noite.

Quem, afinal

pedirá perdão?

O demônio ri.

O post Poema de Gabriel Nascente: Estamos à deriva (ou a ode do ódio pela guerra do Oriente) apareceu primeiro em Jornal Opção.




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