HBO fez Chernobyl. Netflix faz história com a Goiânia do césio de 1987
João Paulo Teixeira
Especial para o Jornal Opção
Quem alguma vez no Brasil ou até no mundo pesquisou sobre radioatividade se deparou com duas cidades, em extremos no planeta. Chernobyl, na Ucrânia soviética — os russos ainda querem anexá-la, mas tá difícil — e Goiânia, a capital do cerrado mais pertinho da capital federal, Brasília.
Eu, que nasci em 1987 — ano ruim para Goiânia e para a agora menina santa Leyde das Neves —, era ainda um bebê de colo quando a nossa queridinha Goiânia virou manchete de jornal e capítulo de livro de química.
Lembro que estudando no ensino médio, lá nas aulinhas do Faiska, no Prevest, via cenas da Rua 74, um canteiro concretado e um pé de goiabas que não podiam nunca ser consumidas em aproximadamente 15 mil anos de decaimento dos isótopos.
Faiska, que na época lecionava química, hoje é médico e ex-secretário de saúde de Aparecida, dizia que Devair Alves Ferreira tinha sobrevivido ao césio e padecido de cirrose de tanto beber naquela pracinha do Centro. Depressivo, ele morreu em 1994.
O que me lembro é estudava sobre como os alemães ajudaram os soviéticos a limpar Pripyat com robôs lunares e, nas mesmas páginas, lá estava eles olhando nós aqui nesse “terrão” dos trópicos mais tristes.
Produção da Netflix tem qualidade
A produção da Netflix é boa. Muito boa. Um feito. Eu já havia visto o longa, também relevante, o “brilho da morte”. Estudei também técnicas de roteiro na Facomb da UFG, no curso para cinema com o bom Lisandro Nogueira. As ferramentas usadas pela produtora contratada pela Netflix seguem o padrão mundial, inclusive os usados pela HBO na megaprodução Chernobyl.
O recurso aqui é menor, em orçamento, mas a qualidade é igual. A personagem Márcio, uma simbiose de um herói jovem, estilo o Davi da Bíblia, o pós doutor em química que vem do centro de pesquisas do RJ e é judeu, humilde e sábio — ele em jejum hebraico e na hora de falar com a criança Celeste, que mimetiza Leyde das Neves — dão a dimensão dramática que sobe o nível da série.
Mesmo o governador ficcional imitando Henrique Santillo, padrinho político de Marconi Perillo, faz da série um entretimento humano e universal. Leva para o Brasil um caso que poderia acontecer em qualquer lugar, mas aconteceu aqui, na capital Art Déco, com nossa terra, nosso pozinho azul brilhante e nossa gente.
A produtora Gullane transita em cenas como a morte dos cachorros, que é idêntica e até mais explorada na série da HBO Chernobyl — um ponto bom aqui, que daria mais engajamento e seria fácil e barato de fazer — e como um cachorro pode fazer o herói da série a ir parar no estaleiro.
Os riscos e histerismos da imprensa também são relatados, como a exportação de papéis para São Paulo, as dificuldades da população local em confiar na água e no arroz que comiam, e mesmo a visita dos médicos soviéticos para tratar os pacientes graves no RJ são bem ambientados.
Os carros e o visual de 1987 também são de alto padrão, um ponto acima da média.
Preconceito contra os goianos
As tentativas do governo de Goiás em levar os dejetos para outras unidades da federação, com saída diplomáticas e políticas, também são retratadas, na ação de Santillo, e também na luta dos médicos em encontrar uma medicação eficaz contra a radiação.
O preconceito contra os goianos também aparece, com os ônibus sendo barrados na fronteira de Minas.
Eu, que já fiz um transplante de rim no HGG, gostei de ver o hospital retratado nas telas, e como ele colabora com a sociedade goiana há décadas, inclusive com as greves dos médicos, que já não mais existem, e funciona bem com as OS.
Temos também a histriônica repórter da tv que faz as perguntas certas que mobilizam e a dificuldade das vítimas que saíram do hospital e ficaram sem casa.
A parte da investigação dos negligentes também aparece, mas com uma carga de dramática muito menor que os julgado em Pripyat na série da HBO. Lá na Rússia soviética esse julgamento teve proporção nacional. Aqui, não.
Em dois dias online, a série já pegou o Top1 da Netflix, a Globo dos novos tempos. Milhões a assistiram, milhares vendo pela primeira vez como os goianos lidaram com a radiação.
A página foi virada e a notícia mais recente é que o Estado aumentou em até 70% as indenizações dos afetados pelo césio.
Fica a cena, para nós goianos, daqueles que queriam impedir o enterro das vítimas no Cemitério Santana, em Campinas. Dizem que até um deputado federal hoje, na época vereador, ajudou. Ele nega. Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.
João Paulo Teixeira, publicitário, da agência Mind e do site GO Portal, é colaborador do Jornal Opção.
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