A medida do tempo
Esse negócio de aula de escrita é mesmo muito interessante.
Comecei a fazer de forma despretensiosa, como uma maneira de pensar um pouco fora do comum, e não é que funciona mesmo?
Dia desses, precisei fazer uma atividade que ficou por dias ecoando aqui, e como nunca deixa de ser na minha vida livreira, relacionei especialmente com um livro que gosto tanto, “Stoner”, de John Williams.
No exercício, precisava pegar uma foto do ano passado e fazer um texto a partir dele. Nisso, me deparei com inúmeras fotos de decoração de natal. E acabei pensando nessa passagem rápida e fugaz do tempo.
Lá em setembro, quando comecei a escrever, mas não cheguei a concluir essa crônica, falava sobre a pressão que já estava para o natal. Nas propagandas, nas ruas, tudo induzia a pensar no natal. Nas decorações, e até eu, na livraria, já programava para essa data.
E, em meio a toda essa euforia e expectativa que o natal traz, me perguntava se era apenas a necessidade de adiantar ou a vida e os dias cada vez mais frenéticos. Nisso, em meio às divagações e protelamentos tão característicos a mim, o tempo me engoliu. Natal chegou, passou, a correria da vida embrulhou tudo, e eu continuei pensando sobre o tempo.
Assim, fiquei dias sem escrever a coluna, dias em que na verdade, fiquei sem escrever nada. E quando voltei, falei sobre maternidade e as inúmeras finitudes da vida, a complexidade e relatividade que é medir o tempo. A falta de tempo para escrever.
Gosto demais de escrever, mas essa busca também por algo extraordinário a ser dito, por um livro incrível a ser citado (mesmo que eu tenha centenas deles na ponta da língua a dizer sobre cada um), acabou por me fazer sabotar no processo de sentar e escrever. Nessa busca que também fiquei por algo extraordinário.
E fiquei pensando se não escrever foi mesmo a fugacidade do tempo ou eu que só passei por ele? E nisso, achei impossível não me lembrar de “Stoner”.
“Stoner” é um livro que narra, com muita força, as miudezas do cotidiano. Um homem que não alcança nada de extraordinário, mas que é moldado – e muda totalmente seu destino, pela força das palavras e o encantamento dos livros.
Esse livro é bonito demais pela singeleza que mostra como é exatamente nossa vida: uma série de dramas miúdos, cotidianos e fatos corriqueiros, que o tempo vai encarregando de arrastar. E o livro me faz pensar, sempre que me lembro dele – ou quando fico a pensar demais nessa maluquice que é a correria dos dias, o que confere real significado a vida?
“Stoner” que é uma celebração a vida singela, ao extraordinário que é uma vida comum, sem grandes reviravoltas ou grandes acontecimentos. Uma vida que, no fundo, foi totalmente mudada pelos livros, esse artigo tão simples, banal e visto muitas vezes como supérfluo.
E fiquei pensando em como acredito em uma vida comum. Como acredito nesse belo do dia a dia. Acredito nessa vida sem nada de extraordinário, mas rodeada de palavras. Como eu acredito nas mudanças nos dias que os livros, as palavras – podem proporcionar.
Mas o que eu pretendo agora é invadir as palavras. Invadir as palavras de mim. Enganar o tempo através delas. Não só para conhecê-las, mas também usá-las. Da mesma forma que o tempo. E nisso vou fingindo existir pela escrita. Pela leitura das palavras, ou mesmo as escrevendo, para garantir que elas não se percam, como o tempo.
E quer coisa mais bonita que isso?
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