Bispo Oídes do Carmo: “Daniel Vilela é um homem qualificado. Tem condições de dar continuidade ao trabalho de Caiado”
Figura respeitada no segmento evangélico, o Bispo Oídes José do Carmo é presidente da Assembleia de Deus Ministério de Madureira – Campo Campinas e presidente vitalício da Convenção Estadual dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus no Estado de Goiás (Conemad-GO). Devido à forte influência no meio, também se tornou um grande articulador político no Estado.
Bispo Oídes conta com dois irmãos na política goiana: Eurípedes do Carmo, atual prefeito de Bela Vista de Goiás, e do ex-senador Luiz do Carmo, nome que recentemente deixou o Podemos para migrar ao PSD pela forte ventilação do seu nome para compor a vice na reeleição de Daniel Vilela. Para ele, o irmão se torna um bom nome na disputa por estar muito próximo dos evangélicos e entender que ele tem um bom trânsito entre os demais segmentos importantes, como o agronegócio.
Nesta entrevista ao Jornal Opção, Bispo Oídes falou sobre o projeto de Ronaldo Caiado para presidência da República. Na sua visão, o ex-governador reúne fatores importantes para se mostrar viável como alternativa perante a polaridade escrachada entre a direita bolsonarista e a esquerda lulista. No cenário local, avaliou como positivo os primeiros passos de Daniel Vilela em demonstrar que dará continuidade ao projeto de seu antecessor. Na corrida ao Senado, declarou apoio aos nomes de Gracinha Caiado e Vanderlan Cardoso e explicou ainda o forte crescimento de jovens que estão se declarando evangélicos e o peso desse segmento nas eleições deste ano.
Ton Paulo – Durante o lançamento da pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência da República, o bispo Samuel Ferreira, que é presidente executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil, declarou apoio ao pessedista. Entretanto, dias antes, o bispo levou parlamentares ligados a ele do PSD para o PL. Com isso, o apoio a Caiado está consolidado ou ainda há conversas com o partido de Flávio Bolsonaro?
Sobre as questões internas da política de São Paulo, eu não posso comentar, porque conheço muito pouco. O que posso falar é sobre o apoio do bispo Samuel a Ronaldo Caiado. Samuel é uma pessoa madura e tomou a decisão analisando o quadro no Brasil, as candidaturas até então colocadas, e decidiu declarar apoio a Caiado em um primeiro momento. É claro que as articulações estavam acontecendo há um tempo e, quando se concretizou que Ronaldo Caiado seria o pré-candidato do PSD, imediatamente o bispo já postou a posição dele.
E, como foi dito por ele mesmo, o apoio vem na tentativa de fugir desse extremismo que tomou conta do país. Ele encontrou em Ronaldo Caiado uma abertura centrada, um homem sério, competente, honesto, que fez uma grande administração em Goiás e que reúne todas as condições de pacificar o país. Não há nenhuma paixão partidária ou ideológica por parte do bispo Samuel, nem nossa. Foi feita uma análise do quadro para identificar uma pessoa que reúne melhores condições de trazer o Brasil para os trilhos do crescimento econômico, social e a paz para esse país. O Caiado tem sido esse nome.
Ton Paulo – O apoio do bispo Samuel Ferreira a Ronaldo Caiado passou por articulações com o senhor?
Ele fez uma consulta prévia com vários líderes do Brasil, inclusive comigo, sobre o pensamento que já vinha desenvolvendo há algum tempo para declarar esse apoio a Ronaldo Caiado.
João Paulo Alexandre – Quais são as qualidades de Ronaldo Caiado que acabam diferenciando-o de Flávio Bolsonaro (PL), que é outro candidato do espectro da direita brasileira?
Essa resposta é muito fácil. O Caiado é um homem que está na política há décadas. Foi senador, deputado federal e, sobretudo, o que importa são os dois mandatos dele enquanto governador de Goiás. Ele desenvolveu uma política mostrando que tem capacidade e competência para ser um gestor de que o Brasil está precisando. Nós não temos nada contra o Flávio Bolsonaro, mas é reconhecido que ele não tem essa experiência.
Wilder Morais é um amigo. Em outros tempos, nós já estivemos juntos e o apoiamos em ocasiões diversas. Até o momento, ele não me procurou, talvez já sabendo dessa aproximação que temos com o Daniel.
Embora na ausência, eu quero citar aqui o nome do pastor Silas Malafaia. Não há ninguém neste país que faça mais defesa de Bolsonaro do que ele. O Silas nos representa em muitas ocasiões e ele foi o primeiro a questionar a escolha, dizendo que Flávio não estava maduro e que deveria ser feito um processo mais profundo nessa decisão. Não estou dizendo que ele deva apoiar Ronaldo Caiado. Como ele é muito fiel ao Bolsonaro, não vejo ele fazendo isso. Mesmo discordando em parte, ele deve caminhar com o Flávio.
Ton Paulo – Trazendo um pouco para a política de Goiânia: recentemente o senhor declarou apoio ao nome de Ronilson Reis para sucessão da presidência da Câmara Municipal. Eu queria saber por que o senhor acha que ele seria um bom nome para o cargo? Aproveito para saber também qual seria o nome ideal para a sucessão de Bruno Peixoto para a presidência da Alego?
Sobre o Ronilson Reis: eu acho que todos os vereadores, desde que eleitos, reúnem condições de presidir a Casa. Ronilson é um nome que pertence ao nosso segmento e buscou o nosso apoio. Eu não recebi esse pedido de nenhum outro vereador. Ronilson me pediu para que eu pudesse fazer alguma articulação a favor do nome dele, e foi o que eu fiz. Eu vejo que ele está maduro e preparado para subir. Não estou dizendo que, se aparecesse outra pessoa com as qualidades do Ronilson, eu vou dizer não a ela, mas esse apoio aconteceu simplesmente por isso.
Sobre a Alego: eu não tenho um candidato, porque confesso que ainda não parei para pensar nisso.
João Paulo Alexandre – O senhor participou da posse de Daniel Vilela como governador de Goiás e, durante o discurso, ele enfatizou muito essa questão da continuidade da gestão de Ronaldo Caiado. Acaba que aqui em Goiás teremos um cenário semelhante ao nacional porque temos um grupo liderado por Vilela e outro bolsonarista liderado por Wilder Morais. Quais são as qualidades de Daniel Vilela em relação aos seus adversários e o senhor acredita que ele tem a possibilidade de vencer no primeiro turno?
Eu compareci a convite do Palácio, pois temos uma consideração muito grande, e que vem de anos, por Daniel Vilela, e fui prestigiá-lo neste momento de posse. Eu tenho toda fé e confiança de que ele está preparado e maduro após caminhar ao longo desses anos ao lado de Ronaldo Caiado, pois acompanhou o governo de perto. Vem de uma família que milita sempre na área política.
Ele já foi vereador, deputado estadual e federal. Em Brasília, ocupou um grande espaço quando era deputado. Daniel é um homem qualificado, preparado, simples, um homem do povo. Acredito que ele tem todas as condições de dar continuidade, e o discurso dele é correto. Certamente, reeleito, ele vai imprimir uma marca um pouco diferente, porque cada um tem a sua visão de governo.
Ele é jovem e nós estamos a merecer lideranças novas que surgem, que não dependam tanto do tradicionalismo da política. Ele está atualizado com os novos tempos e tem condição de fazer um governo moderno.
João Paulo Alexandre – O pré-candidato pelo PL ao governo de Goiás, Wilder Morais, chegou a articular um apoio com o senhor? Tem algum tipo de aproximação com ele?
Wilder Morais é um amigo. Em outros tempos, nós já estivemos juntos e o apoiamos em ocasiões diversas. Até o momento, ele não me procurou, talvez já sabendo dessa aproximação que temos com o Daniel. Mas eu estou aberto para receber qualquer pessoa que me procure. Outros políticos de matrizes ideológicas e partidárias diversas têm estado comigo, até mesmo pedindo oração por eles. Então, pessoalmente, eu não tenho nada contra o Wilder Morais, mas são as condições políticas que são criadas ao longo do tempo que, às vezes, dificultam alguma parceria.
Ton Paulo – O ex-senador Luiz do Carmo, irmão do senhor, é um dos cotados para compor a vice de Daniel Vilela. Durante o Umadego, que foi realizado no Goiânia Arena, o ex-governador Ronaldo Caiado fez fortes sinais de que o nome dele está no páreo. Como estão as conversas para isso? Você acredita que Luiz do Carmo tem chance de ser vice do Daniel? Por que ele seria o melhor nome para essa vaga?
Eu acompanhei, desde o começo, o aparecimento do nome do Luiz, que foi sondado pelo Palácio das Esmeraldas sobre a disposição dele em colocar o seu nome em uma eventual candidatura e se ele estaria disposto a isso. Eu não quero citar nomes, mas quero deixar claro que não foi uma demanda do nosso segmento. Não houve uma pressão por espaço, e não está havendo também. O nome dele surgiu naturalmente, como outros surgem. E penso que a trajetória política dele também contribui para isso: dois mandatos de deputado estadual, senador por quatro anos, com uma atuação muito intensa, e nunca se distanciou do MDB, do Daniel, desse grupo como um todo, desde o tempo de Iris Rezende.
Muita gente não sabe, mas o Luiz foi suplente do Caiado por uma intervenção do Iris. Naquela época, o MDB seria responsável por indicar o suplente, e o nome do meu irmão foi trabalhado e projetado. Luiz é um nome limpo, sem passado duvidoso, e ele pode representar muito bem o nosso segmento em uma chapa com o Daniel Vilela.
Ton Paulo – Recentemente, o Jornal Opção o entrevistou e ele disse que, além da questão do voto dos evangélicos, ele acredita ser capaz de trazer votos do segmento do agro, que é um setor muito forte em Goiás e que tem um vínculo muito grande com Ronaldo Caiado. Você acredita que Luiz do Carmo seria capaz de construir essa ponte com o agro?
Eu não sei se ele teria essa questão com o agro. Eu vejo o Luiz como um representante do segmento evangélico e que transita bem entre os demais segmentos da sociedade. Eu viajo muito e encontro prefeitos e deputados que demonstram simpatia pelo Luiz, e isso foi algo que ele conquistou. E eu vejo que todos nós somos do agro. Em Goiás, ou se tem origem ou vínculo com o agro. O Luiz também tem.
Agora, tudo é uma questão de entendimento. A política é a arte de conversar, discutir e chegar a um entendimento. O maior representante do agro no Estado de Goiás chama-se Ronaldo Caiado, no meu ponto de vista. Desde cedo, eu vejo nele esse homem que lutou pela propriedade privada, contra as invasões de terra, lá no tempo da UDR. Então, ele tem esse vínculo e acredito que ele já tem esse apoio consolidado.
João Paulo Alexandre – Sabemos que, por muito tempo, quase não se ouvia falar do segmento evangélico dentro da política, mas isso mudou com a entrada da direita no poder, em 2018, com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Realmente foi nesse momento que o segmento evangélico mostrou sua importância, inclusive no poder de decisão de uma eleição, ou isso já acontecia antes e agora está mais latente? Qual o peso desse segmento para as eleições deste ano?
Eu quero dizer que, bem antes do bolsonarismo, a igreja já estava despertando para a necessidade de ter representação na área política. Isso acontece exatamente devido ao crescimento de pessoas evangélicas em Goiás e no Brasil. Por isso, tornou-se um segmento muito importante do contexto. Prova disso foi que, no último Censo do IBGE, 26% da população brasileira se declarava evangélica, mas esse índice, em Goiás, chegou a 34%.
Os institutos de pesquisa têm identificado que o fator decisivo nas eleições, tanto estaduais quanto nacionais, depende do segmento evangélico. Você vê o esforço que o governo federal, principalmente o Lula, faz para se aproximar do segmento. E reforço: isso não é uma fala aleatória minha. É uma constatação dos institutos. A religião, seja ela católica ou protestante, passou a estar sempre presente em pesquisas de opinião.
Agora, foi antes do Bolsonaro. É claro que o bolsonarismo foi interessante, porque ele pegou a pauta que já era nossa, os valores, os princípios, e passou a defender. Exatamente por quê? Por que não a esquerda? Porque ela combate frontalmente os nossos valores, os nossos princípios, o tempo todo. Foi criando, ao longo do tempo, um distanciamento, e o Bolsonaro chegou, pegou essa bandeira de sermos conservadores, e isso literalmente atraiu os evangélicos para o lado dele.
João Paulo Alexandre – O senhor citou, na sua resposta anterior, sobre o aceno que o presidente Lula da Silva (PT) tem tentado fazer ao segmento evangélico. Ele tem conseguido ou não?
Eu acho que não tem conseguido, porque não é apenas uma questão de aproximação pessoal. Tem que mudar a postura, a política e o discurso. Tem que ter uma prática efetiva que sinalize para os evangélicos que a pauta deles mudou. E acho que essa desconstrução é muito difícil. Então, a dificuldade de aproximação é porque o segmento não quer só discurso, quer uma mudança de atitude por parte da esquerda.
Ton Paulo – Ainda sobre essa tentativa do presidente Lula da Silva em se aproximar dos evangélicos, ele sancionou o Dia do Evangélico, teve a Marcha para Jesus e, recentemente, fez a indicação do Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), que, além de ser um braço direito dele, é um nome ligado à Igreja Batista. Ele, inclusive, também teve apoio do bispo Samuel Ferreira, que participou de uma reunião no Palácio do Planalto. O senhor acredita que essa indicação também é uma investida mais incisiva para se aproximar desse segmento? E acha que isso pode funcionar entre os evangélicos?
Eu conheço o Jorge Messias porque ele frequenta eventos nossos há anos. Quando há convenções, ele sempre comparece. Ele é um evangélico autêntico e é evidente que é um dos nossos ocupando essa posição. Vale lembrar que Bolsonaro colocou o André Mendonça — o “terrivelmente evangélico” — no Supremo e agradou. Agora, Lula indica o Messias, o que é uma sinalização boa, mas não sei se isso muda o quadro, se faz alguma diferença. Mas recebemos de bom grado a nomeação.
Caiado desenvolveu uma política mostrando que tem capacidade e competência para ser um gestor de que o Brasil está precisando
Até para ser sincero, quando Lula discursou na nomeação de Flávio Dino para o STF, ele se alegrou muito e disse que estava nomeando o primeiro ministro comunista. Para nós, isso é um terror. Então, é muito melhor um evangélico que seja de esquerda do que um comunista.
Ton Paulo – Em Goiás, temos uma figura do meio evangélico, vinda de berço protestante, que é a vereadora Aava Santiago (PSB). Ela tem tentado fazer a ponte entre o governo petista e os evangélicos. Como o senhor vê sua figura? Acha que as movimentações e os discursos dela realmente têm representado o segmento evangélico?
A Aava Santiago, de fato, tem origem de família evangélica. Eu não vou dizer que ela é evangélica. Só que ela não tem tido sucesso nessa tentativa de ser essa ponte. Na verdade, ela tem o seu público, uma força política muito grande, mas é junto a outro segmento, não ao evangélico.
João Paulo Alexandre – Voltando a falar sobre disputa presidencial: na sua avaliação, qual deve ser a linha de atuação de Ronaldo Caiado para que o povo brasileiro acredite nele como essa alternativa entre a polarização PT e PL? Qual conselho o senhor daria para ele?
Se o Brasil conhecesse o Caiado como os goianos conhecem, ele iria crescer rapidamente nas pesquisas. Então, a dificuldade, em tão pouco tempo, é tornar-se conhecido no Brasil. E não estou falando do nome Caiado, que certamente todo mundo já ouviu, mas eu digo da sua capacidade de governo, o que ele realizou aqui em Goiás. E, sobretudo, a pessoa dele: correta, honesta, um homem que não transige com o erro ou com a corrupção.
É claro que é muito difícil você entrar no meio de uma polarização dessa. É complicado. Então, eu imagino que o Caiado deve ter um discurso voltado à pacificação. Mostrar que ele não se alinha nem a um extremo, nem a outro, mas, sim, que ele quer o desenvolvimento do país, o crescimento econômico, social, a paz da nação. Ele tem que focar em pacificar a nação e mostrar realmente os feitos em Goiás, como na área da segurança pública, social, educação, ou seja, tudo de bom que foi realizado por aqui.
Tem um versículo na Bíblia que diz: “Quem é fiel no pouco será fiel no muito. Quem não é fiel no pouco não será fiel no muito”. Se, no microestado, ele implantou uma política que deu certo, ela pode ser aplicada no macro também, para o Brasil todo. Acredito que ele trabalhará mais ou menos nessa direção.
Ton Paulo – Diante da sua experiência, quais deveriam ser os critérios analisados pelo ex-governador para escolher o nome para vice que o acompanhará na corrida para presidente da República?
É complicado, porque depende muito de composições com os partidos, governadores e estados, mas todo mundo fala, e eu vou falar também: seria interessante ele colocar uma mulher que tenha militância política e seja conhecida no país. Essa seria uma boa escolha.
Ton Paulo – Falando agora sobre a corrida ao Senado: como enxerga a indicação de Flávio Bolsonaro pelo pastor Oséias Varão para ser o segundo nome na chapa do PL, junto com Gustavo Gayer?
Eu não sei analisar qual é a intenção do Gustavo Gayer, porque, no início, ele não queria ninguém ao lado dele, sendo o único candidato. Depois, busca o Oséias. Eu faço uma leitura de que o senador Vanderlan Cardoso (PSD), por ser evangélico, naturalmente teria apoio do segmento. Não enho nada contra o Oséias, e ele me consultou sobre isso: se aceitaria o convite ou não. Mas, se você é político, deve aceitar. Porém, de certa forma, pode ser um jogo político no sentido de dividir o voto evangélico.
Imagino que isso pode acontecer, porque o Oséias é um evangélico que todo mundo reconhece o trabalho dele, tem uma militância forte e que pode, de certa forma, contribuir para desconstruir um pouco o nome do Vanderlan, que eu entendo que é muito forte. Na minha leitura, eu acho que Gracinha Caiado (UB) e Vanderlan vão alcançar essa vitória ao Senado.
Ton Paulo – Como enxerga o nome de Gracinha Caiado ao Senado? Pois, pelo trabalho no social, ela acabou tendo um apelo muito forte no meio evangélico.
Nós acompanhamos o trabalho de Gracinha Caiado como primeira-dama, em que ela não se resumiu apenas a esse cargo. Ela militou muito na política, criou o Goiás Social, que é muito importante, mostrou ser uma pessoa sensível, e ela se qualificou, por mérito próprio, a pleitear esse cargo. E imagino que, por ser muito carismática, ela ganhou a simpatia dos goianos pela sua pessoa e pelo trabalho social que ela realizou ao longo desses anos.
João Paulo Alexandre – Dentre os pré-candidatos ao Senado, quais o senhor vai apoiar?
Gracinha Caiado e Vanderlan Cardoso. Esses eu não tenho dúvida. São apoios que estão consolidados.
Ton Paulo – Notamos uma formação nas chapas para deputado federal com nomes fortes do segmento evangélico. Como tem avaliado os pré-candidatos que estão se colocando?
No nosso meio, na Assembleia de Deus Ministério Madureira, nós estamos trabalhando, e já há algo que está encaminhado, que continuaremos com o apoio ao Glaustin da Fokus (Podemos), e chega agora o João Campos também.
É evidente que nós temos outros nomes, como o Ismael Alexandrino, que também pertence à igreja, onde certamente já tem o seu espaço. O Daniel Agrobom também tem a simpatia de algumas igrejas. Mas, oficialmente, o que está sendo trabalhado são os nomes de Glaustin e João Campos.
João Paulo Alexandre – O senhor citou o deputado Daniel Agrobom, e tivemos muitos integrantes do PL, assim como ele, que destacaram uma falta de espaço dentro do partido devido à ausência de diálogo. Onde a direita bolsonarista peca em não manter essa conversa com seus integrantes e qual a importância do diálogo para que se consolide apoios sólidos?
A política é a arte da boa conversa, da discussão, do debate, da abertura, do diálogo, do convencimento. Eu penso que há um extremo no bolsonarismo, na extrema-direita, que fecha e elimina o diálogo mesmo. Há, muitas vezes, determinação, e não algo que se conclua por meio do diálogo, pela força da conversa e do entendimento.
Então, o extremismo cega as lideranças — e as pessoas em geral —, que não enxergam o mundo lá fora. São causas pétreas que deveriam até mudar, mas não mudam. Se a pessoa não encontra espaço, não tem segurança, ela acaba migrando de partido mesmo, como foi o caso do Agrobom e de outros também. E isso não acontece só no PL. Há outras siglas também que têm os caciques que mandam: coisas em Goiás que são decididas nacionalmente e acabam não tendo o que entendemos como boa política.
João Paulo Alexandre – Anteriormente, o senhor nos respondeu sobre o discurso de Ronaldo Caiado, que deveria vir com uma pegada pacificadora entre os extremismos. Você acredita que isso também é importante ser trazido por Daniel Vilela para que ele seja visto como uma alternativa contra essa polarização aqui dentro do Estado?
Com toda certeza. Ao tomar posse como governador, ele disse a frase: “a partir de agora, eu sou governador de todos os goianos”. Na posição de candidato, a questão é a seguinte: você não tem que se preocupar com A nem B. Faça a sua política, a sua campanha e apresente a sua proposta. Porque a política, para nós, não é contra alguém. É a favor de alguém.
Quando você faz uma política que é contra A ou B e fica desconstruindo um ou outro, você não tem valor, não tem proposta, não tem princípios. Seja você mesmo, implemente sua visão de mundo, de governo, de administração e venda isso para o povo. Política é a arte do convencimento, da proposta melhor, do nome que reúne condições morais, éticas, seriedade e honestidade. E a população começa a acreditar exatamente nisso.
Por falta de entendimento, o evangélico era segregado em relação a certos costumes que existiam e que hoje não existem mais. Então, o evangélico hoje está em todas as áreas da sociedade
Então, Daniel não tem que perder tempo: ele é governador de todos os goianos, e é nessa linha que ele tem que continuar. Tem a direita, a esquerda, e ele segue em frente.
Ton Paulo – O Podemos é um partido aqui em Goiás que aglutina muitas lideranças de destaque do meio evangélico. Entretanto, a sigla acaba de perder o nome de Luiz do Carmo, que aceitou o convite de Ronaldo Caiado para ir para o PSD. O senhor acredita que, com essa perda, a sigla será capaz de articular uma chapa para eleger bons nomes do segmento para o Congresso Nacional e para a Alego?
Eu tenho acompanhado essa formação, a nominata para deputados do Podemos, e eu acho que ela é muito boa, dentro da proposta de eleger entre dois a três nomes para estadual e dois para federal.
O Luiz do Carmo foi para o PSD porque foi dito, com todas as letras, que o vice de Daniel Vilela sairá da sigla. Então, todos os pretensos candidatos a vice estão alojados no partido. Não é uma ruptura com o Podemos nem nada similar a isso. É uma conveniência política de momento.
Ton Paulo – Daniel Vilela já está como governador de Goiás. Ele já está ou intensificou o diálogo com os evangélicos? Chegou a procurar o senhor depois que tomou posse?
Não, não. Ainda não tivemos nenhum contato. Certamente teremos tempo para isso. Ele deve estar muito atribulado com esse começo de governo, pondo a casa dentro daquilo que ele entende como deve ser, nomeando novos assessores, trocando alguns. Nós não tivemos nenhum contato depois da posse ainda não.
Ton Paulo – Todos os segmentos, independentemente de apoiarem ou não um pré-candidato, fazem alguns pontos de observação para aquele possível mandatário. Qual é a prioridade dos evangélicos para o governo de Daniel Vilela?
O nosso segmento não é de cobrar nada. As pessoas entendem erroneamente que a igreja quer tirar proveito, que tem que cuidar da religião, que não pode mexer com política, que quer fazer parte, mas não reivindicamos isso. Agora, é claro que há uma política de governo que nos interessa muito, que é na área social, pois nos ajuda muito. Então, eu peço para que Daniel não retire aquelas parcerias que nós temos de convênios, de entrada no governo, para que possamos proteger ainda mais o nosso povo, acolher as demandas dentro dessa área social. É isso que nos interessa.
João Paulo Alexandre – Recentemente, publicamos uma reportagem sobre o perfil do eleitor que tem deixado de votar com a emoção e focado na razão para viabilizar soluções para os problemas da comunidade. Como está isso dentro do segmento evangélico? As pessoas têm realmente deixado a emoção de lado, buscando soluções sólidas para os seus pares?
De uma forma geral, o país todo — e não deixa de atingir também o segmento evangélico — vive esse clima de beligerância, em que as pessoas não estão votando com a razão, mas com a emoção. Há muita paixão latente, que vem de alguns anos e permanece. Qual é o nosso trabalho perante isso? É conscientizar. Não temos poder de mandar, nem queremos isso, e há uma interpretação equivocada em relação à liderança de pastor ou de qualquer outro. Não há autonomia para mandar no voto da pessoa. Agora, nós temos uma força, e ela é a do convencimento: de mostrar exatamente a necessidade de usar a razão, a lógica, enxergar as propostas e o que é melhor para o Brasil.
Esse debate interno sempre fazemos, no sentido de abrir mão do emocionalismo, da paixão partidária, dessa guerra que tomou conta dos irmãos brasileiros. Se lá fora há essa dificuldade, internamente nós também temos. Você vê a fala do bispo Samuel Ferreira: ele fez uma declaração normal, indicando a preferência dele por alguém, e foi bombardeado de críticas. Eu sei que qualquer palavra que eu disser aqui as pessoas da minha igreja podem não me perdoar. Para você ver a que ponto chegamos. Mas o nosso trabalho é incansável, e eu não desisto nunca de conscientizar as pessoas sobre o que nós entendemos ser melhor, não para nós, mas para o Brasil.
Ton Paulo – Deixando um pouco a política de lado, nós fizemos a cobertura da Umadego e era impressionante a quantidade de jovens e adultos no Goiânia Arena, que ficou lotado. O que explica o crescimento de jovens que se declaram evangélicos não só em Goiás, no Brasil?
Como é bom falar do resultado da semeadura do evangelho nessa nação. Porque a grande missão nossa, enquanto igreja, é cumprir a ordem de Jesus: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” — Marcos 16:15. Essa é a missão. Então, eu vejo isso como uma colheita de uma semeadura bem feita, que alcança o coração de todos, especialmente da juventude. Nós temos percebido essa crescente, não só no congresso, mas como um reflexo do que acontece no dia a dia.
Fizemos, recentemente, uma atividade interna, que é o batismo de novos convertidos. No universo de 300 pessoas, mais de 200 eram jovens, que não eram evangélicos ontem, anteontem e que, agora, vieram, agregaram a fé e foram recebidos como membros da igreja por meio do batismo. Isto é no Brasil inteiro. Eu fico muito feliz de saber que essa juventude está sendo alcançada pela fé evangélica, pela palavra de Deus, porque, querendo ou não, a humanidade está sedenta.
Tem uma frase de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. De repente, a pessoa encontra algo além da liberdade, que, para ela, é pouco, e chega à paz do coração, à comunhão com Deus e se redescobre. Naquele congresso no Goiânia Arena, nós tivemos que limitar as inscrições, e ficou um excedente muito grande de jovens que não conseguiram adentrar ao ginásio. É a caminhada da igreja, e esse crescimento incomoda certos setores da sociedade e vai incomodar ainda mais. Então, graças a Deus, é o resultado de uma semeadura do evangelho.
Ton Paulo – Percebemos que há muitas pessoas que se colocam como lideranças evangélicas que não têm representado bem o segmento, com discursos que, às vezes, mais dividem do que unem, mais despertam ódio do que pacificação. Pela sua expertise de anos como liderança respeitada neste meio, qual é a verdadeira mensagem do evangelho em que as pessoas devem se ater enquanto cristãs?
É claro que esse é um dos males do crescimento do número de evangélicos: as distorções. Aquilo que parece evangelho, mas não é. Não tem a essência, porque o evangelho é transformação, caráter, mudança de vida. Jesus falou: “Vocês são a luz do mundo e o sal da terra”. Paulo, em Romanos 9:6, diz que “nem todos que se dizem judeus são judeus, nem todos que se dizem evangélicos são, de fato, evangélicos”. Essa é uma luta interna da igreja em formar o caráter cristão, que é a essência da pessoa viver a ideologia de Cristo, a mensagem do evangelho.
Agora, há muito escândalo, muita gente se passando por evangelho, e é importante dizer que ser evangélico não é uma religião, é um estilo de vida. O cristianismo é um estilo de vida. E muita gente não adota esse estilo de vida, embora diga que é cristã.
João Paulo Alexandre – Como enxerga essa mudança no perfil dos jovens evangélicos? Antigamente, eles tinham vergonha de dizer que frequentavam a igreja, que eram evangélicos, por receio de sofrer repressão por parte da sociedade?
Eu fui jovem e, no meu tempo, não apenas em relação à juventude, mas ao segmento evangélico, havia muita discriminação, muito preconceito. Parte disso era culpa mesmo da atuação da própria igreja, que era muito fechada, rigorosa, impunha sobre a juventude certos costumes, na época, que, às vezes, levavam o jovem a se envergonhar de se assumir evangélico no meio dos seus colegas, devido a práticas que não eram bíblicas.
Era coisa de antes, em um tempo em que o entendimento era outro. Eu não vou culpar também os fundadores da igreja, aqueles que pagaram alto preço, enfrentaram pedradas, oposições e dificuldades, mas venceram. Porém, por falta de entendimento, o evangélico era segregado em relação a certos costumes que existiam e que hoje não existem mais. Então, o evangélico hoje está em todas as áreas da sociedade. Posso dizer que não tenho vergonha do evangélico. Mesmo aqueles que pagaram um preço não renunciaram, ficaram firmes. Eu venho dessa geração e estou em pé até hoje. Mas é verdade que mudou muito.
João Paulo Alexandre – Além da Umadego, o que mais é feito dentro da igreja para que o jovem se aproxime ainda mais da palavra de Deus e que ele tenha voz dentro da igreja?
Toda igreja tem sua estrutura administrativa. Nós temos, por exemplo, nas Assembleias de Deus, dentro dos ministérios, o Ministério de Jovens. Eles são muito ativos na igreja. Nós temos permanentes seminários, simpósios, cultos, encontros. Eles estão o tempo todo envolvidos, engajados, mobilizados no trabalho da igreja local. Cada um tem o seu espaço, a sua participação. Então, nós temos sabido, graças a Deus, usar essa força jovem na igreja. Ele tem o seu espaço consolidado e, sobretudo, orientação, treinamento e cursos o tempo todo. Toda a igreja tem isso, seja na periferia, seja no centro da cidade, nos pequenos povoados, onde quer que seja, há uma estrutura voltada exatamente para a juventude.
O congresso é apenas um momento especial, de tempos em tempos, mas o dia a dia da juventude é de muita atividade, vivência, participação e um bom espaço nos templos das igrejas.
João Paulo Alexandre – Em média, qual é a porcentagem de jovens dentro da igreja atualmente?
Já houve um tempo em que as mulheres, as senhoras, ocupavam o maior espaço. Era um público mais numeroso. Hoje, eu posso dizer que a juventude está ocupando esse espaço, com um percentual de mais de 60% dentro das igrejas.
Ton Paulo – Para encerrar, queria que o senhor deixasse um versículo que fosse capaz de resumir o nosso cenário político e social em Goiás.
Salmo 33:12: “Feliz é o povo cujo Deus é o Senhor. Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor. Então, infeliz é o povo que dispensa a Deus.” Que possamos voltar para o Senhor, porque todo o segredo da vitória vem de uma nação temente a Deus, reconhecer o Senhor em todos os seus caminhos, e, certamente, a luz vai brilhar no caminho de todos nós.
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