Os primeiros sinais de que Daniel vai, de fato, seguir a linha dura de Caiado na segurança
Com um discurso emocionado de despedida e, ao mesmo tempo, engajado de entusiasmo pela posse do sucessor, Ronaldo Caiado transferiu, no último dia 31 de março, o cargo e a faixa de governador para seu vice, Daniel Vilela. O filho de Maguito Vilela assumiu o Palácio das Esmeraldas em definitivo após 7 anos e 3 meses de gestão do agora ex-governador Caiado, eleito em 2018 e reeleito em primeiro turno em 2022.
“Está aí: governou ao meu lado, conhece toda a parte orçamentária, veio de uma origem política importante e tem a responsabilidade de honrar o nome da família. Saberá combater a corrupção, a criminalidade e apoiar as pessoas de bem. Passou pela Câmara, Assembleia, presidiu a CCJ e também me enfrentou em 2018. Por isso eu o busquei”, disse Caiado, referindo-se a Daniel, em meio a aplausos e gritos de “Caiado presidente!”.
Isso porque o ex-governador de Goiás, após ser escolhido como o nome que representará seu partido no pleito, deu início a uma intensa pré-campanha para consolidar seu nome na disputa ao Palácio do Planalto. A saída do União Brasil e a ida para o PSD tiveram como objetivo exatamente isso: obter espaço e condições mínimas para viabilizar seu projeto presidencial.
E, desde o lançamento da pré-candidatura, em um grande evento ocorrido em Salvador, em abril do ano passado, uma das – quiçá a principal – bandeiras de Caiado tem sido aquela em maior evidência na “vitrine” do estado, com números capazes de destacar sua gestão no cenário nacional: a segurança pública.
A aprovação de mais de 80% de Ronaldo Caiado em Goiás (segundo pesquisa Real Time Big Data) explica-se, em grande parte, pelos baixos índices de criminalidade obtidos durante sua gestão, evidenciando uma associação direta entre percepção de segurança e capital político.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, documento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que compila, anualmente, estatísticas de diversas áreas da segurança de todo o país e por estado, em 2017, na gestão de Marconi Perillo – que deve se candidatar ao governo neste ano – Goiás foi classificado como o 8º estado mais violento do Brasil, com uma taxa de 43,8 mortes violentas por 100 mil habitantes.
Já em 2025, dados da 19ª edição do anuário colocaram o estado de Goiás como o 19º mais violento, com uma taxa de mortes violentas de 15,1, representando uma queda significativa tanto em termos absolutos quanto relativos no ranking nacional.
Ainda segundo o Anuário, em 2016, na gestão Marconi, Goiás registrou, em números absolutos, 2.491 crimes violentos letais intencionais. Em 2024, na gestão Caiado, esse número foi de 960, ou seja, 61,4% menor. Quanto ao crime específico de latrocínio, o Anuário apontou a ocorrência de 186 casos em 2016. Em 2024, a quantidade caiu para 18 – uma redução expressiva de 90,3%, o que reforça a centralidade da política de segurança como marca de governo.
A manutenção desses índices é justamente uma das maiores preocupações do eleitorado quanto à gestão de Daniel Vilela. Talvez por ser consideravelmente mais novo – Daniel Vilela tem 42 anos – e por apresentar um perfil mais moderado em relação ao antecessor Caiado, conhecido por posturas incisivas e contundentes em assuntos considerados sensíveis, o novo governador será observado com atenção redobrada em seus primeiros meses de governo. A questão que se coloca é: o filho de Maguito Vilela será capaz de sustentar o alto nível da segurança pública atingido por Caiado?
Os primeiros sinais enviados por meio das declarações e movimentações de Daniel indicam que a resposta tende a ser positiva.
Em seu primeiro discurso pós-posse, já como governador do Estado de Goiás, Daniel deu o tom da gestão que pretende conduzir. À semelhança do discurso feito por Caiado em janeiro de 2019, quando tomou posse pela primeira vez, Daniel Vilela enfatizou a preservação, em seu governo, do “jogo duro contra a bandidagem”, sugerindo continuidade estratégica.
“Não vamos baixar a guarda na segurança pública. Pelo contrário! É jogo duro contra a bandidagem. Com o governador Caiado, os bandidos mudaram de estado ou mudaram de profissão. E esse continuará sendo o principal mandamento da nossa gestão. Podem ter certeza de que a melhor força de segurança do Brasil vai continuar tendo o mesmo apoio, o mesmo respaldo do governador do estado. É tolerância zero com a bandidagem e cuidado pleno com o cidadão de bem. Goiás é e vai continuar sendo o estado mais seguro do Brasil!”, afirmou, sob aplausos e manifestações de apoio dos presentes na cerimônia de posse.
Os sinais de que o novo governador de Goiás deve seguir, com alto grau de fidelidade, o caminho traçado pelo antecessor também se manifestam na formação de seu secretariado. Com nomes ainda sendo divulgados gradualmente, e mudanças em pelo menos 15 pastas – como Administração, Economia, Educação, Agricultura, Controladoria-Geral e Infraestrutura, as secretarias e instituições ligadas à Segurança Pública, como a Polícia Civil, liderada por André Ganga; Polícia Militar, comandada por Marcelo Granja; Corpo de Bombeiros, liderada por Washington Vaz, e a própria Secretaria de Segurança Pública, permanecem inalteradas. “Renato Brum fica”, destacou Daniel, citando nominalmente o titular da SSP em Goiás.
Está claro tanto para Daniel quanto para quem o acompanha a partir de agora que a passagem de comando em Goiás deixa à vista que a segurança pública não é apenas um dos pilares da gestão que se encerra, mas, sim, o elemento que organiza tanto a narrativa política de Ronaldo Caiado quanto as expectativas sobre o atual governador Daniel Vilela.
Os dados de redução da criminalidade mostram de forma escancarada por que a continuidade nessa área aparece não só nos discursos, mas também nas escolhas administrativas iniciais do novo governador. Leia-se: ao repetir o jargão do “jogo duro” e preservar a estrutura da segurança, Daniel indica que reconhece o custo político de qualquer inflexão.
Ainda assim, a atuação dele será testada justamente na capacidade de transformar essa herança em algo próprio, e, quem sabe, a ponte para um segundo mandato.
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