“Quando cheguei aqui era um Deus nos acuda”, relembra Sebastiana Ferreira, de 65 anos, uma das primeiras moradoras do Novo Samambaia. O bairro nasceu da ocupação do Samambaia Country Club, no Jardim Los Angeles, em 2017. Atualmente, a antiga invasão já foi regularizada, recebeu água tratada, rede de esgoto e energia elétrica, deixando para trás os cenários de “bang-bang”. Hoje, quem passa pela Avenida dos Cafezais, quase na esquina com a Rua Engenheiro Paulo Frontin, vê apenas o muro que restou do espaço. A área está à venda e ainda abriga duas casas, além de bancos e cadeiras que são os únicos resquícios da época de ouro do clube. O fim dos anos 1980 e a década de 1990 marcaram o auge do local. Em 2000, o fundador morreu vítima de infarto, dando início a um processo que levou ao fechamento do clube. Até 2005, os filhos ainda administraram o espaço, mas decidiram entrar com o inventário. Durante o funcionamento, o clube chegou a registrar aproximadamente 5 mil sócios. A ocupação começou em 2017 de forma organizada e contou, inclusive, com uma associação. A área foi dividida em terrenos de 10 por 20 metros para cada família. Sebastiana chegou pouco depois dessa divisão. “Quem invadiu vendeu para mim o lote e eu construí minha casa. Tem gente que comprou agora, mas, quando começou, todos começaram do zero”, conta. Ela lembra que, na época, o clube já apresentava sinais de abandono. Até a regularização, a moradora viveu com ligações clandestinas de energia e uso de água de poço. “Foi difícil e ainda não é fácil. [...] Quando a gente precisa, vai fazendo. É que nem ninho de pombo: constrói uma peça hoje, outra amanhã e consegue”, relata. Hoje, a casa dela passou de dois para quatro cômodos. Na varanda, uma parreira e um pé de graviola recebem as visitas. No quintal, flores ajudam a compor a decoração. A calçada ainda tem poucas plantas, mas deve ganhar mais em breve. Com o passar dos anos, mudanças passaram a ser percebidas por quem vive na região há mais de nove anos, principalmente a redução da violência. “Antigamente era mais na bala, mas a vizinhança já mudou bastante e hoje tem muitos idosos morando aqui. É bem tranquilo. Os ‘bang-bang’, os filmes de faroeste, acabaram faz tempo”, afirma. A comerciante Ana Claudia Ferreira, de 49 anos, conta que foram os filhos que participaram da ocupação. Hoje, eles têm casas no local e, em um dos terrenos, ela mantém uma marmitaria e salgadaria. Mesmo assim, acompanhou de perto o processo de regularização. “Aqui sempre foram casas de alvenaria, nunca foi barraco. Foi bem organizado. Em pouco mais de um ano veio a energia elétrica e, em 2024, o esgoto”, diz. A regularização fundiária começou em 2022, após uma ação de reintegração de posse tramitar no Judiciário. Em outubro de 2021, as moradias foram seladas depois que a Emha (Agência Municipal de Habitação) realizou o cadastro social das famílias. A Prefeitura formalizou acordo com os proprietários da área para desapropriação, desafetação e demarcação dos lotes, instrumento legal que garante segurança jurídica às famílias e a inserção do bairro na malha urbana da Capital. Mesmo quatro anos depois, as marcações ainda permanecem nos muros das residências. O processo também foi acompanhado por moradores de bairros vizinhos. Na divisa com o Macaúbas, José Ferreira, de 73 anos, lembra da época em que o clube ainda funcionava. “Aqui eram poucas casas, era tudo mato. O clube ainda existia, depois veio a invasão. Eu ajudei a pegar terrenos para meus filhos. Quando cheguei, ainda funcionou por dois anos, e eles chegaram a frequentar”, recorda. Ao olhar para o passado, ele diz que não há comparação. “Quando surgiu aqui, essa rua virava um buraco danado. Hoje estamos no céu. Já foi pior, muito pior. Não tinha jeito de a polícia entrar aqui, era só buraco”, completa.