A poesia adolescente de Ney Teles de Paula nasceu adulta
Eu não sabia. O leitor certamente não sabia. Mas o escritor, crítico e desembargador goiano Ney Teles de Paula, de 59 anos, é um poeta de méritos.
O mais surpreendente: seus poemas, reunidos no livro “Memorial do Efêmero” (Kelps, 77 páginas), foram escritos quando tinha entre 13 e 18 anos.
Quando se fala em literatura, idade não tem tanta importância, pois Büchner, Rimbaud e Radiguet foram autores precoces e marcantes.
Entretanto, apesar da pouca idade, a poesia de Ney Teles tem consistência, fôlego, força interior e é filha, não sei se inconsciente (na verdade, deve ter sido leitor precoce), da poesia modernista (não há cacos românticos e parnasianos). Há digressão e dispersão? Há, às vezes, mas predomina a contenção.
Os poemas são de um adolescente e os temas, à primeira vista, parecem pertinentes apenas à idade.
Mas há uma geografia da vida íntima, uma percepção de lugares (mesmo que seja um quintal, que, apesar da cerca, do mundo, contém, de certo modo, o universo em miniatura), que revela a aguda percepção do poeta na arte usar palavras e escarafunchar o mundo e dotá-lo de certo sentido. Ainda que o mundo seja o íntimo (o de “fora” para “dentro”).
A poesia adolescente de Ney Teles nasceu, felizmente, adulta, mas explorando, com sensibilidade e rara felicidade, o universo da vida do menino (lembra a percepção, não apenas vagamente, do belíssimo livro “Minha Vida de Menina”, de Helena Morley. Só que mais triste, digamos).
A poesia de Ney Teles retrata um mundo de silêncios, de introversão, que só se torna barulhento, digamos, quando levado para o papel.
Aí, pode-se dizer, a poesia de Ney Teles grita e certamente está refletindo sua vida (perdeu a mãe quando tinha 4 anos).
O que não deixa de ser estranho (mas muito interessante) — e aí o menino deixa o poeta fazer a mediação — é que a poesia não é lacrimosa, derramada. Isto a faz a sobreviver. A arte às vezes é redenção. Medicamento da alma.
Ney Teles conta o triste, o seu triste, mas com uma contenção que se torna, por assim dizer, esplendor. Sim, sua poesia cavouca o passado, não para torná-lo belo, e sim para explicá-lo e, notadamente, entendê-lo. O lamento se torna belo, poesia, mas, ainda assim, lamento.
“Tateando no escuro das origens”
Transcrevo o belo (mais do que singelo) “A busca”: “Tateando no escuro das origens/ O menino queria abarcar o mundo/ Com seus braços pequenos e magros./ As mãos espalmavam a angústia/ E os braços distendiam a esperança.// Seguia pelas ruas olhando a vida,/ Contemplar sempre foi a sua sina./ O pensamento voejava pelas estrelas/ Enquanto os pés resvalavam no barro.// Aprender a conversar em silêncio/ Com as palavras e os pássaros,/ Passou a decifrar o murmúrio das águas,/ E a mensagem, ora dolente, ora tempestuosa,/ Dos ventos, prenunciando as chuvas”.
Recomendo a leitura de “O domínio do silêncio”, “Muros”, “Visão do mundo”, “O silêncio das coisas”, “Magia do som”, “A condição humana” e “As vidas se sucedem”.
Tenho percebido que, via literatura, Ney Teles está resgatando a sua história, no estilo proustiano. No final, a história, no sentido da prosa do francês, passa a ser a história de todos nós, sem perder a graça da individualidade, do específico.
[Texto publicado na edição do Jornal Opção de 19 de outubro de 2008.]
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